Cresci na Favela de Senador Camará no Rio de Janeiro, e foi ali que conheci Jesus.
Minha mãe era muito religiosa, vinha do movimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e participava ativamente das celebrações da igreja. Parte da minha família era católica, outra parte evangélica e alguns poucos se diziam ateus, tudo dentro da cota da família brasileira, imagino.
Por volta dos meus 9 anos de idade nos mudamos para terras capixabas, em Água Doce do Norte no interior do Estado, e embora eu fosse muito novo, percebia que a devoção das pessoas nesses locais parecia ser ainda maior.
Durante a quaresma, nossa rotina em casa mudava e havia uma série de regras sobre o que comer, os lugares que podíamos frequentar, as músicas que podiam ser ouvidas e a obrigatoriedade de não faltar a nenhuma liturgia da igreja. Acompanhar a via-crúcis e toda a jornada de Jesus até o calvário era, para mim, uma experiência dolorosa. Inclusive, acredito que essa história poderia facilmente ser classificada como imprópria para menores de 18 anos, porque podia facilmente traumatizar as crianças.
Mesmo assim, eu queria saber qual era o desfecho final, mesmo tendo ouvido o fim da história várias e várias vezes. A cada nova semana santa parecia que havia uma nova reviravolta, algo que eu ainda não tinha entendido. Talvez continue sendo assim até hoje.
Era a história de um homem que fazia milagres, tinha poderes, mas também sofria, chorava e sentia dor. Sentia medo, tinha dúvidas e mesmo diante de xingamentos e da violência sofrida, mostrava o outro lado da face. Não fazia distinção entre pessoas, defendia os pobres e oprimidos, expulsava os mercadores do templo, e tratava todas as pessoas como seus iguais.
Antes de morrer pediu ao pai, não José, mas o que está nos céus, que perdoasse seus malfeitores, porque dizia ele: “eles não sabem o que fazem”.
Para mim que morava na Favela, era inspirador conhecer a história desse homem que vinha de uma família muito parecida com a minha e a da maioria dos meus amigos. Famílias estas que também sofriam discriminação pela cor de sua pele, por morarem em áreas vulneráveis e sem infraestrutura. Muitas vinham sofrendo agressão em seus direitos mais básicos como a falta de acesso a saúde, moradia digna e até falta de comida.
Conheci a maioria das mães dos meus colegas, muitas delas do lar, faxineiras, costureiras, empreendedoras por sobrevivência o que me lembrava Maria, mãe de Jesus, que se dedicava ao trabalho doméstico e que para gerar renda trabalhava com o tear. Muitos pais de amigos meus eram pedreiros, serralheiros outros garis, o que me faz lembrar de José, um humilde carpinteiro como muitos pais de Favela, que garantia o sustento de sua família com trabalho duro, de sol a sol, e não abria mão de ensinar os princípios éticos a seu filho.
Era um Jesus que fazia sentido.
Hoje, é comum ver templos e igrejas, grupos religiosos e líderes falando em prosperidade e riqueza, como se fosse um pré-requisito para ser um verdadeiro cristão. Para muitos destes, quando Jesus foi tentado durante os 40 dias no deserto e recusou a riqueza, talvez tenha cometido um erro. Para outros, alimentar os que tem fome virou uma metáfora distante e conveniente.
Me pergunto o que Jesus diria diante de tudo isso.
Vivemos tempos de polarização extrema, feminicídio, racismo, xenofobia e guerras. Um cenário que comprova o quanto nos afastamos de nós mesmos, de valores básicos e de nossa humanidade.
É urgente parar. Dar um passo atrás.
Revisitar mais uma vez a história daquele Jesus que além da figura religiosa foi também um ativista social e agente de transformação. Alguém que ensinou na prática, justiça, misericórdia e amor.
Nesta Semana Santa o convite é refletir sobre qual caminho estamos escolhendo. Se seguimos em direção à nossa própria humanidade, ou se continuamos apressados rumo ao nosso próprio precipício.
No fim, somos todos responsáveis por nossas escolhas e pelos resultados de nossa história.




