O Brasil trata a cultura como gasto, mesmo quando ela devolve muito mais do que recebe. Já explico.
Enquanto o debate público gira em looping em torno de inflação, juros e fórmulas econômicas tradicionais, uma das engrenagens mais dinâmicas da economia segue subestimada ou é intencionalmente ignorada — a cultura. Muito longe de ser acessório ou mero entretenimento, esse setor responde por impressionantes 6,1% da economia mundial e 3,1% do PIB brasileiro, movimentando cadeias produtivas complexas, que vão da criação à distribuição, passando por serviços, tecnologia e turismo.
No Espírito Santo, cerca de 10% dos trabalhadores vivem direta ou indiretamente da cultura. São mais de 215 mil pessoas que encontram nesse setor não apenas sustento, mas também oportunidade. A cultura e a indústria criativa injetam recursos significativos na economia e nos cofres públicos, com dinamismo superior ao de setores tradicionais como o automobilístico e a construção civil que, claro, são essenciais.
Ainda assim, a cultura segue sendo tratada como secundária, um luxo, quando na prática gera impacto direto na infraestrutura econômica e social.
Parece contraditório. Mas não é.
A população consome cultura todos os dias, na música que escuta, no filme que assiste, no evento que frequenta, no prato culinário que carrega identidade. O que permanece invisível é a engrenagem por trás disso tudo, que são os produtores, técnicos, artistas, comunicadores, designers, cozinheiros, artesãos. Uma cadeia inteira que gera renda, emprego e movimenta economias locais.
Vou trazer mais números. Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que a cada R$ 1,00 investido pela Lei Paulo Gustavo, há retorno de R$ 6,51 para a economia e os cofres públicos. No caso da Lei Rouanet, esse retorno é ainda maior e chega a R$ 7,59 por cada real aplicado. Isso vai além de opinião ou polarização política. É evidência econômica.
Dados como esses desmontam o velho discurso de que cultura é gasto. Ao contrário, comprovam que fomentar cultura é um negócio altamente rentável, é investir no desenvolvimento, impulsionando também outros setores sociais e toda a economia criativa.
Diferente da metalurgia, que depende de chapas de aço, ou da construção civil, que utiliza tijolos, areia e cimento, a cultura e a economia criativa têm como matéria-prima a criatividade, o capital intelectual e a identidade cultural. É daí que surgem produtos únicos, com valor econômico agregado e inovação.
Ignorar esse movimento não é apenas um erro, é escolha política.
Ao negligenciar o investimento contínuo na cultura, especialmente na cultura periférica, o país abre mão do desenvolvimento, reduz oportunidades e limita o próprio potencial de crescimento. Não estou aqui falando apenas de fomentar artistas, mas de fortalecer um setor inteiro que impacta diretamente outras áreas como turismo, transporte, comércio e serviços.
Aliás, cultura não é privilégio, é direito. Mais do que isso, é estratégia.
Reconhecer isso exige mais do que discurso. Exige políticas públicas estruturadas, investimento consistente e visão de longo prazo. Exige entender que o desenvolvimento não se constrói apenas com grandes indústrias, mas também com aquilo que o Brasil tem de mais abundante: sua gente e sua criatividade.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Sim Notícias.




