Inovação
Data Centers, peaceshoring, Porto Central e a régua
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Evandro Milet

Evandro Milet é consultor, palestrante e articulista sobre tendências e estratégias para negócios inovadores. Possui Mestrado em Informática(PUC/RJ) e MBA em Administração(FGV/RJ). É Conselheiro de Administração pelo IBGC, Membro da Academia Brasileira da Qualidade-ABQ, Membro do Conselho de Curadores do Ibef/ES e membro do Conselho de Política Industrial e Inovação da Findes. Foi Presidente da Dataprev, Diretor da Finep e do Sebrae/ES, Conselheiro do Serpro e Banestes. Tem extensa atuação como empresário, executivo e consultor em inovação, estratégia, gestão e qualidade, além de investidor e mentor de startups, principalmente deeptechs. Tem participação em programas de rádio e TV sobre inovação. É atualmente Presidente do Cdmec-Centro Capixaba de Desenvolvimento Metal-Mecânico.
Data Centers, peaceshoring, Porto Central e a régua. Foto: Reprodução
Data Centers, peaceshoring, Porto Central e a régua. Foto: Reprodução

O mercado mundial de data centers vive uma fase de expansão acelerada, impulsionado pela explosão da inteligência artificial, pela digitalização de serviços e pela necessidade crescente de armazenamento e processamento de dados em escala. Estimativas apontam que os investimentos globais podem ultrapassar a marca de US$ 3 trilhões até o início da próxima década, com os grandes hyperscalers — grandes provedores de serviço de nuvem, como Amazon, Microsoft, Google e Meta — liderando a corrida por capacidade de computação. Os Estados Unidos detêm em torno de 50% dos cerca de 12 mil data centers do mundo. Essa infraestrutura é vital tanto para o treinamento de modelos de IA, que exige poder computacional massivo, quanto para a inferência, etapa em que os modelos já treinados são aplicados em tempo real em aplicações comerciais.

No Brasil, o cenário é igualmente promissor. O país reúne vantagens competitivas importantes: uma matriz energética predominantemente renovável, que confere credenciais de sustentabilidade, e uma posição geográfica estratégica para a instalação de cabos submarinos, responsáveis por cerca de 95% do tráfego intercontinental de dados. Projeções indicam que o consumo de eletricidade dos data centers brasileiros deve saltar de 1,7% para quase 4% da demanda nacional até 2029, superando inclusive o gasto com iluminação pública. O uso de água para resfriamento também é um desafio, especialmente em regiões com escassez hídrica, o que pressiona empresas a investir em tecnologias de eficiência e reuso.

A discussão sobre novas legislações como a ReData para data centers e outra para cabos submarinos no Brasil adicionam uma camada estratégica ao setor. Também não é seguro que os dados brasileiros sejam armazenados fora do país. O objetivo é garantir soberania digital e segurança nacional, ao mesmo tempo em que se cria um ambiente regulatório capaz de atrair investimentos internacionais. Nesse contexto, as Zonas de Processamento de Exportação (ZPE) surgem como instrumento de competitividade: ao oferecer incentivos fiscais e aduaneiros, reduzem custos de importação de equipamentos de alta tecnologia e favorecem a instalação de data centers voltados para exportação de serviços digitais. A combinação de legislação moderna e benefícios de ZPE pode transformar o Brasil em um hub regional de conectividade e inteligência artificial.

O futuro aponta para uma expansão acelerada, mas também para um mercado cada vez mais regulado e pressionado por questões ambientais. Países com matriz energética limpa terão vantagem competitiva na atração de hyperscalers, e o Brasil, se souber equilibrar crescimento com sustentabilidade, pode se consolidar como protagonista global.

O Brasil ainda traz a vantagem de não ser alvo de guerras ou terrorismo. Há alguns poucos anos se discutia sobre nearshoring ou friendshoring para uma nova localização de empresas no mundo, mas talvez o que prevaleça seja um novo peaceshoring, onde o Brasil fica bem. Afinal a nossa guerra é outra.

São Paulo e Fortaleza têm se destacado em projetos de implementação de data centers, pela proximidade de mercado ou de cabos submarinos respectivamente. Mas o Espírito Santo deveria investir na possibilidade de instalação de um grande data center na área do Porto Central em Presidente Kennedy, com possibilidade de geração de energia local e acesso à água do rio Itabapoana, com facilidade de justificar uma ZPE e com possibilidade de disputar espaço na nova legislação em curso para cabos submarinos. O acesso dos grandes centros da região sudeste a esse ambiente não seria problema e um novo projeto de ferrovia idealizado dali para o centro do país dispõe de faixas de domínio que permitiriam o acesso ao interior mesmo antes da própria ferrovia. Seria um projeto estruturante para toda a região sul do estado, carente de investimentos e que caberia perfeitamente na prioridade de descarbonização no uso de recursos do fundo soberano do estado.

O Espírito Santo já dispõe de um dos melhores centros de desenvolvimento de IA no país, principalmente a partir da Ufes. Podemos ficar relevantes nesse tema também no hardware.

Se é para colocar a régua lá em cima, vamos pensar em coisa grande.

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