O Brasil enfrenta uma contradição que deveria ser motivo de preocupação para todos os cidadãos: a arrecadação nunca foi tão alta, mas, mesmo assim, as contas públicas continuam deficitárias. A promessa de equilíbrio fiscal se perde diante da série de elevações de impostos e da criação de novas taxas que oneram quem produz, trabalha e consome.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), em 2025, os brasileiros dedicaram em média 149 dias do ano apenas para quitar impostos, o que representa 40,82% da renda média anual. Em 2024, a soma da arrecadação do governo alcançou aproximadamente 34,2% do PIB, evidenciando que o Estado brasileiro nunca arrecadou tanto.
Mesmo assim, o governo escolheu um caminho familiar. Em vez de reduzir despesas ou reformar a administração pública, instituiu e aumentou impostos sob diversas justificativas. Entre as medidas mais notórias estão a volta da cobrança de impostos sobre combustíveis, a tributação de compras internacionais até 50 dólares, o conhecido “imposto das blusinhas”, a taxação de apostas eletrônicas e a imposição de tributos sobre rendimentos de fundos exclusivos e offshores. Todas foram apresentadas como necessárias para equilibrar as contas e sustentar programas sociais, mas pouco se avançou na real causa do problema: a ineficiência e o tamanho do Estado, que continua gastando mais do que arrecada.
Mesmo com o aumento de impostos, o déficit persiste. Em 2024, o resultado nominal das contas públicas ficou em torno de R$ 900 bilhões negativos, equivalente a 7,67% do PIB. Até julho de 2025, o governo já registrou um déficit primário acumulado de R$ 70 bilhões. Apesar de alguns meses terem apresentado um leve superávit, a situação geral continua delicada, evidenciando que a questão não é a falta de recursos, mas o descontrole dos gastos.
A estratégia de elevar impostos em vez de reduzir despesas mantém o contribuinte pagando a conta do desequilíbrio fiscal. O mais preocupante é que, mesmo com arrecadação recorde, os serviços públicos continuam precários. Saúde, educação e infraestrutura enfrentam os mesmos gargalos, reforçando a sensação de que o cidadão paga muito e recebe pouco.
Essa situação questiona o conceito de justiça tributária. Quando quase metade do salário do trabalhador é destinada ao Estado sem um retorno perceptível, o imposto adquire a natureza de confisco.
Cria-se, assim, um ciclo vicioso: mais impostos alimentam um Estado cada vez mais dependente de arrecadar para sustentar sua estrutura. A dívida pública aumenta, os gastos obrigatórios crescem e a margem para investimentos produtivos reduz. O discurso de responsabilidade fiscal perde credibilidade quando o ajuste é feito apenas pelo lado da receita, sem cortes de despesas, revisão de privilégios ou aumento real da eficiência administrativa.
A realidade é que o país precisa gastar melhor, não cobrar mais. A estabilidade das contas públicas requer uma administração eficaz, transparência e audácia política para combater o desperdício e os privilégios que consomem recursos orçamentários.
A liberdade financeira do cidadão depende, necessariamente, da responsabilidade de quem governa. De nada adianta prometer crescimento e justiça social se, na prática, o governo continua tratando o contribuinte como uma fonte inesgotável de recursos. O verdadeiro ajuste fiscal começa com a compreensão de que não se pode manter um Estado inchado às custas de uma sociedade exaurida.
*Gleiciane Kempim é Analista de Operações e Negócios no Sicoob Central ES e Diretora Financeira do IBEF Academy.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.






