Além do Divã
O ECA digital e o cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes
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Alexandre Vieira Brito

Alexandre Vieira Brito é psicólogo e mestre em Psicologia Institucional pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Filosofia e Psicanálise pela Ufes, bem como em Políticas Públicas e Socioeducação pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência em saúde mental, formação profissional, políticas públicas e socioeducação. Realiza atendimento clínico desde 2010. Também é professor universitário e palestrante, articulando a psicologia em suas interfaces com outros saberes.
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Debate do ECA digital propõe algo fundamental. Foto: Pexels

Durante muito tempo, quando falávamos de proteção à infância, imaginávamos riscos que estavam nas ruas, nas instituições ou nas relações familiares. Ainda que isso seja uma realidade, hoje sabemos que parte importante desses riscos também atravessa as telas. A vida social de crianças e adolescentes se deslocou em grande medida para o ambiente digital, e isso exige novos modos de cuidado.

É nesse contexto que surge o chamado ECA digital: um conjunto de discussões e atualizações que procuram aplicar os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente ao mundo das plataformas online, redes sociais, jogos online e tecnologias digitais. Afinal, boa parte das crianças e adolescentes acabam criando mais vínculo com as telas do que com seus pares.

A questão central não é entender a internet como vilã, pura e simplesmente. Isso seria uma redução equivocada e sem função para o problema. Pois o ambiente digital também pode ser espaço de aprendizagem, criação e, em alguma medida, socialização. O problema aparece quando esse território passa a operar sem limites, sem responsabilidade das plataformas e sem proteção adequada aos jovens. Isso se agrava ainda mais quando a tela acaba por substituir a presença e o brincar.

A saúde mental de crianças e adolescentes é profundamente atravessada por essa nova realidade. Redes sociais organizadas por lógica de engajamento constante estimulam comparação, exposição permanente e busca por validação. A criança aprende cedo que precisa performar uma imagem de si mesma para ser reconhecida. O adolescente, por sua vez, passa a medir seu valor por curtidas, visualizações e aprovação coletiva.

Além disso, o ambiente digital pode amplificar experiências de violência que antes tinham um alcance mais limitado. O cyberbullying, por exemplo, não termina quando o jovem sai da escola. Ele acompanha a criança no celular, invade o quarto, aparece nas notificações. O que antes era um episódio localizado pode se transformar em uma experiência contínua de humilhação.

Outro ponto delicado é a exposição precoce a conteúdos inadequados — violência, pornografia, discursos de ódio — que muitas vezes aparecem mediadas por algoritmos que não distinguem maturidade psíquica ou fase do desenvolvimento.

O debate do ECA digital propõe algo fundamental: reconhecer que crianças e adolescentes não podem ser tratados como adultos no ambiente online e que estão em situação de desenvolvimento. Eles precisam de proteção, mediação e responsabilidade institucional.

Isso significa pensar em regras mais claras para plataformas, limites para coleta de dados, mecanismos de controle de conteúdo e, principalmente, uma cultura de responsabilidade compartilhada entre Estado, empresas, escola e família.

Do ponto de vista psicológico, essa discussão é urgente. A constituição e desenvolvimento de crianças e adolescentes acontece em suas relações, seja com o mundo, com o corpo, com a cultura, com as instituições e com o ambiente online. Se uma parte significativa desse mundo é digital, então o cuidado com a saúde mental também precisa considerar esse território.

Vale lembrar que proteger não significa privar ou proibir tudo. Significa criar condições para que crianças e adolescentes possam experimentar o mundo digital sem serem capturados ou violentados por ele.

No fundo, a pergunta que o ECA digital nos coloca é simples: se reconhecemos que a infância precisa de proteção no mundo físico, por que seria diferente no mundo virtual?

Daqui para frente, o cuidado da saúde mental das novas gerações também precisar passar por essas questões!

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