Entrevista

Contarato quer apoio de Casagrande, por “gratidão” e “reciprocidade”

Em entrevista à coluna, senador resgata que, em 2022, PT retirou sua candidatura para apoiar Casagrande, em movimento essencial para a reeleição do governador contra Manato. Ele também espera que Casagrande peça votos para Lula: “Seria natural”

À esquerda, Alberto Gavini e Renato Casagrande; À direita, Fabiano Contarato
À esquerda, Alberto Gavini e Renato Casagrande; À direita, Fabiano Contarato

No começo de 2022, ano da última eleição estadual, o PT lançou o senador Fabiano Contarato a governador do Espírito Santo. Ele pontuou bem, de maneira consistente, em pesquisas de intenção de voto. Porém, em meados de julho, um mês antes do início da campanha, por ordem da direção nacional, o PT retirou a pré-candidatura a fim de apoiar a reeleição de Renato Casagrande (PSB).

Num acordo que passou por outros estados, a determinação teve duas motivações: compensar o PSB de Casagrande pelo apoio a Lula na disputa presidencial e a Fernando Haddad em São Paulo; unir forças do campo progressista no Espírito Santo, de modo a evitar eventual vitória das forças de direita e extrema direita representadas naquele pleito por Carlos Manato (PL). Tudo isso é verdade.

E é exatamente esta história que, na entrevista abaixo, é resgatada pelo seu protagonista, o senador Fabiano Contarato, para agora afirmar: ele quer o apoio de Casagrande e do PSB à sua candidatura à reeleição no Senado, por “reciprocidade” e “gratidão”.

É óbvio que, se houvesse essa reciprocidade por parte do PSB e, pontualmente, em determinadas ocasiões, que ele [Casagrande] pudesse fazer essa conexão no segundo voto com a nossa reeleição, eu acho que seria um ato de reciprocidade, até mesmo de gratidão.

Contarato também quer que Casagrande entre (desta vez, de verdade) na campanha de Lula e peça votos para ele. “Seria natural, até mesmo tendo em vista o campo ideológico, partidário, de bandeiras de conquistas. […] Até mesmo por afinidade ou por digital, eu espero que a adesão seja nesse sentido. E que o governo Casagrande, efetivamente, entre para a campanha de reeleição do presidente Lula.”

Abaixo, a entrevista do senador – concedida na última segunda-feira (2), antes da divulgação da notícia de que o PT nacional decidiu apoiar Casagrande como segundo candidato ao Senado.

Sua candidatura ao Senado está inteiramente consolidada?

Consolidada. É considerada prioridade pelo PT estadual, pelo PT nacional e pelo presidente Lula. Onde o PT tem senador, nossa prioridade é alcançar a reeleição e ampliar a base do presidente Lula. Objetivamente, esse ponto já está mais que consolidado. Não tem nem discussão.

Há alguma chance de o senhor “descer” para ser candidato a deputado federal?

De forma alguma. Isso aí é divagação de quem está querendo, de alguma forma, desqualificar o nosso mandato. Mas o mandato está propositivo. No tempo adequado, a população vai fazer essa avaliação e vai ver as entregas que eu fiz durante este mandato. Isso tem zero chance dentro do partido, do Governo Federal e para o presidente Lula. Não tem a mínima possibilidade de acontecer.

Eu lhe pergunto isso, na verdade, em função da pré-candidatura do deputado federal Helder Salomão a governador do Espírito Santo, desfalcando, por assim dizer, a chapa do PT para a Câmara dos Deputados. Ele foi o candidato a deputado federal mais votado no Estado em 2022 e era, potencialmente, o puxador de votos dessa chapa no próximo pleito. Isso leva alguns a especular que, sem o Helder na chapa, o PT no Espírito Santo correria até o risco de não conseguir eleger nenhum deputado federal…

Pelo contrário. Mesmo com Helder Salomão sendo candidato a governador, e estou muito feliz com isso, o PT no Espírito Santo vai ter uma ótima chapa para deputado estadual e para deputado federal. A candidatura do Helder ao governo só está dependendo de uma conversa dele com o próprio presidente Lula, para sacramentar isso. Só falta esse detalhe para bater o martelo. Mas há quase 100% de certeza de que o Helder será o nosso candidato ao governo aqui no Espírito Santo. Isso não vai interferir na possibilidade de o PT fazer dois deputados federais. Nós teremos na chapa a Jack Rocha, que vai vir para a reeleição e que tem uma quantidade expressiva de votos. Teremos João Coser, subindo para ser candidato à Câmara dos Deputados. Teremos Iriny Lopes, também subindo para a Câmara Federal. Fora os demais candidatos, como o vereador de Vila Velha Rafael Primo e os companheiros da federação, que também são pré-candidatos a deputado federal, como o ex-secretário estadual de Saúde Nésio Fernandes, do PCdoB. Então, com todo o respeito, independentemente do Helder Salomão, o Partido dos Trabalhadores trabalha com essa hipótese de fazer dois deputados federais.

Voltando à eleição ao Senado, são duas vagas em disputa por estado, portanto dois votos por eleitor. Para quem o senhor vai pedir o seu segundo voto?

Bom, não posso valer exercício de futurologia. Ainda estamos desenhando como isso vai se construir, quem serão os candidatos… E não posso falar pelo partido. O PT é um partido muito coeso com relação a isso. Essas decisões são tomadas dentro dos espaços internos de discussão e de diálogo. No momento oportuno, isso vai ser anunciado. Agora, não posso me antecipar a algo que é uma decisão do colegiado do partido.

Aqui no Espírito Santo, o PSB, Partido Socialista Brasileiro, não estará com o PT na mesma coligação, até por causa da eleição ao Governo do Estado, já que o PSB tem o compromisso prévio de apoiar a candidatura de Ricardo Ferraço. Assim, a princípio, o senhor e Renato Casagrande, ambos disputando o Senado, não estarão na mesma coligação. Mas o senhor pode fazer uma campanha casada com o Casagrande em alguns momentos, alguns ambientes e contextos? Além disso, espera que o governador peça votos para o senhor?

Eu acho sim. Nós temos que fazer um resgate histórico aqui. Quando eu estava na metade do meu atual mandato no Senado, em 2022, nós retiramos a minha candidatura ao Governo do Estado para fazer um apoio ao PSB, no caso, ao governador. Eu estava pontuando bem nas pesquisas, mas nós, naquele momento, decidimos apoiar a reeleição do governador Casagrande pelo PSB, por entendermos que, naquela conjuntura estadual e nacional, era preciso fazer um esforço para evitar o risco de que o campo progressista e democrático pudesse até perder o governo naquele momento.

Para um senador, é muito bom você fazer esse movimento político na metade do mandato, indo para o governo. Você só sai ganhando com isso. Mas, naquele momento, nós retiramos minha candidatura em nome de um projeto maior, tanto para a eleição do presidente Lula [apoiado pelo PSB em 2022], como também para a reeleição do Casagrande.

É óbvio que agora seria muito bem-vindo o apoio do Partido Socialista Brasileiro à nossa reeleição, naquilo que for possível. Sempre olho os meus pais, que me ensinaram muito a gratidão, a reciprocidade. Então, se teve um momento em que foi feito esse nosso empenho de retirar nossa candidatura ao governo…

É óbvio que, se houvesse essa reciprocidade por parte do PSB e, pontualmente, em determinadas ocasiões, que ele pudesse fazer essa conexão no segundo voto com a nossa reeleição, eu acho que seria um ato de reciprocidade, até mesmo de gratidão.

E na disputa presidencial, senador, o senhor espera que o Casagrande peça votos para o Lula?

Olha, eu acho que seria natural, até mesmo tendo em vista o campo ideológico, partidário, de bandeiras de conquistas. Estamos diante de dois projetos totalmente antagônicos e diferenciados. Você tem uma pré-candidatura à reeleição do presidente Lula, que vem da base social, dos direitos dos trabalhadores, dos movimentos sociais, dos direitos humanos, de combate e erradicação da pobreza, enfim… E você tem um outro projeto que não tem essa adesão.

Senador, qual é a diferença do Contarato que entra agora nessa disputa à reeleição para aquele candidato estreante de oito anos atrás?

A maturidade. Acho que cresci politicamente. Aprendi que, na política, o ótimo é inimigo do bom. Às vezes você idealiza um projeto de lei que é fenomenal, mas daquele jeito você não vai conseguir aprová-lo. Então, você precisa convergir com os diferentes, dialogar com aqueles que pensam diferente de você, sem ódio, sem rancor. E então você consegue costurar isso.

Faço aqui menção a um projeto que aprovei em decisão terminativa no Senado, com a ajuda do próprio relator, que foi o Flávio Bolsonaro. Fui o autor do projeto que aumenta de três para 10 anos o período de internação do adolescente em conflito com a lei que praticou o ato infracional com violência, grave ameaça ou equiparado a crime hediondo. E quem foi o relator do meu projeto aprovado? Foi um senador do PL.

Na campanha de 2018, foi bandeira minha cadeia para motorista bêbado, e consegui realizar isso como lei. Então, cumpri o que prometi. Recentemente, tive outro projeto aprovado, transformando em crime hediondo corrupção, crimes contra a ordem tributária. Aprovei o piso da enfermagem, é lei de minha autoria. Você vai para a segurança pública, fui o relator da lei geral da Polícia Civil, da Polícia Militar, do Bombeiro. Então, são muitas entregas que eu iniciei, como um neófito na política.

E outra coisa: eu fui muito independente. Não renunciei às minhas convicções. Costumo falar de honestidade intelectual. Eu era o líder do PT no Senado e, no projeto da saidinha dos presos, eu falei assim: se o presidente vetar, eu vou lutar para derrubar o veto. Saiu lá, em rede nacional, que o líder do PT do Senado ia derrubar o veto do presidente Lula. E derrubamos, porque eu trabalhei com isso. Não era razoável você manter aquele estado de concessão de 35 dias por ano para uma pessoa condenada.

Fui relator, por exemplo, do que a imprensa intitulou, erroneamente, como o “PL do Veneno”. Eu me sentei com a senadora Tereza Cristina, que é do Mato Grosso do Sul, com os consultores do Senado, com o Ibama, com o Meio Ambiente, com o Ministério da Agricultura, e chegamos a um texto palatável que foi aprovado à unanimidade.

Então, acho que essa é a beleza da política: você não ficar com radicalismo nem com extremos, mas saber que você pode convergir com os diferentes em muitas coisas.

O senador Flávio Bolsonaro, mencionado pelo senhor e com quem mantém uma relação cortês, apareceu pela primeira vez, nas mais recentes pesquisas de intenção de voto, tecnicamente empatado com Lula ou até numericamente à frente dele, em simulações de segundo turno. O PT vê com preocupação a ascensão meteórica do Flávio? Isso ligou o alerta vermelho no partido?

É claro que não podemos deixar de reconhecer que o cenário será extremamente polarizado. Ele continua nesse processo de polarização desde as últimas eleições. Não falo nem com relação ao Flávio. Costumo dizer que qualquer pessoa que estivesse ali, com o sobrenome Bolsonaro, existe uma forma, um modus operandi que você vai continuar tendo essa polarização. E é óbvio que você tem também alguns fatores que, de alguma forma, podem fazer com que haja alguma repercussão no atual governo. É por isso, por exemplo, que o próprio Bolsonaro não queria obviamente a CPI da Covid, porque qualquer CPI em pleno ano eleitoral não é positiva para nenhum governo. É por isso que acredito muito nessa comunicação, na hora dos debates, na hora de divulgar isso através dos meios de comunicação para informar a população. Então, isso retrata aquilo que já vem acontecendo: a polarização entre o campo progressista, retratado pelo presidente Lula, e o campo da direita, ou da extrema direita, retratado pela família Bolsonaro e, nesse contexto, pelo Flávio Bolsonaro.