Eleições 2026

Ricardo assina manifesto contra aliança do MDB com Lula

Presidentes do partido em 17 estados são contra eventual coligação do MDB com o PT e apoio à reeleição de Lula. Querem que partido fique neutro na corrida ao Planalto e libere os diretórios estaduais. Ricardo é um deles. Ele explica aqui seu posicionamento. E nós o analisamos

Ricardo Ferraço discursa em seu ato de filiação ao MDB (16/10/2023). Crédito: Wilson Roberto

O vice-governador Ricardo Ferraço assinou um manifesto para reivindicar que o partido se mantenha independente na eleição presidencial deste ano. Dirigente maior da sigla no Espírito Santo, Ricardo é um dos 17 presidentes de diretórios estaduais do MDB que subscrevem o documento, entregue nesta terça-feira (3) ao presidente nacional do partido, Baleia Rossi, deputado federal por São Paulo.

Representando a maioria dos diretórios regionais, eles querem que o MDB não entre na coligação nacional do PT e não apoie formalmente a reeleição do presidente Lula (PT). Pedem, ainda, que a direção nacional do MDB libere os diretórios estaduais para se posicionarem individualmente com relação à disputa presidencial, de acordo com a realidade de cada unidade da federação.

Confirmando ser um dos 17 signatários, o vice-governador do Espírito Santo revela que assinou o manifesto após ter sido consultado pelo próprio Baleia e que a palavra central é “independência”.

“Queremos ter independência para que cada estado defina a sua circunstância. O Brasil é um país continental. A realidade das diversas regiões é muito distinta. A do Pará não é a mesma que a do Mato Grosso, que não é a mesma que a do Espírito Santo… Pela realidade de cada região, defendo que os estados devem ter independência para definir o seu melhor caminho.”

Perguntamos a Ricardo de que maneira eventual coligação do MDB com o PT na disputa presidencial poderia ser ruim para sua própria candidatura a governador do Espírito Santo, considerando que a atual legislação eleitoral não impõe a verticalização das alianças – ou seja, a coligação majoritária nacional não precisa ser reproduzida nos estados. Ricardo afirma que, na verdade, “isso não está na mesa”.

“O que está na mesa é se vamos ter vinculação a uma candidatura nacional ou não. E o que estamos defendendo é que cada estado adote o seu caminho em função da realidade local. É o que eu pessoalmente estou defendendo, e não apenas eu, mas a maioria dos presidentes de diretórios estaduais. Queremos que a gente tenha liberdade para, na hora certa, escolher aquilo que cada um considera melhor para sua realidade.”

Que a direção nacional nos libere para que cada um possa fazer a opção que considere melhor para a sua realidade, considerando as circunstâncias locais.

Sobre a resposta de Baleia Rossi, Ricardo diz esperar que a solicitação dos 17 diretórios estaduais seja acolhida. “Endereçamos a ele nossa manifestação, e nossa expectativa é que ela seja reconhecida, até porque o Baleia é uma pessoa com elevado princípio democrático.”

Ricardo preside o MDB no Espírito Santo desde outubro de 2023. No último sábado (28), à frente de uma chapa única, foi eleito presidente do novo diretório estadual permanente do partido.

Análise: por que neutralidade convém a Ricardo?

Evitando marcar posição antes da hora, sem necessidade, sobre a já polarizada disputa presidencial, Ricardo tem buscado fugir ao máximo de um debate precipitado sobre Lula, Bolsonaro e coadjuvantes. Tem procurado evitar que a disputa local seja antecipadamente contaminada pela polarização nacional.

Sempre que indagado sobre isso, o vice-governador redireciona o foco para a administração estadual, destacando a necessidade de seguirem trabalhando e entregando resultados. E, mesmo quando o instamos a assumir um lado ideológico, prefere tratar essa questão como de menor importância, reafirmando que a população está muito mais interessada em resultados.

A estratégia – até este momento, pelo menos – está muito clara: concentrar a campanha no portfólio de entregas do governo que ele assumirá oficialmente daqui a, no máximo, um mês, com a confirmação da renúncia do governador Renato Casagrande (PSB).

Dito isso, é preciso observar não cabe a menor dúvida quanto à identificação de Ricardo no espectro ideológico: sem ser de extrema direita, o vice-governador pode tranquilamente ser classificado como um político de direita, muito liberal na economia, filho de uma tradicional família política de Cachoeiro de Itapemirim, cujo patriarca é o atual prefeito, Theodorico Ferraço (PP).

Cachoeiro, aliás, é uma cidade altamente conservadora e permeável ao bolsonarismo, conforme se provou nos últimos pleitos.

Em 2016, Ricardo votou pelo impeachment da então presidente, Dilma Rousseff (PT). No ano seguinte, foi o relator da reforma trabalhista, durante o governo Temer (MDB).

Com esse perfil, não existe a menor possibilidade de Ricardo vir a apoiar Lula para presidente da República. Só não se sabe, ainda, se ele declarará apoio a algum outro presidenciável em momento oportuno, mas Lula está fora de questão para ele.

Ora, como resgatado acima, há muito tempo, já não vigora no país a regra da verticalização. Tecnicamente, nada impede, por exemplo, que PT e MDB se coliguem na eleição para a Presidência da República, mas, no Espírito Santo, fiquem em coligações diferentes.

Por sinal, já é possível afirmar: no Espírito Santo, PT e MDB não estarão na mesma coligação. Ricardo encabeçará sua própria coligação ao Governo do Estado, enquanto o PT já lançou Helder Salomão na disputa pelo mesmo cargo. A candidatura do deputado só está pendente do carimbo final de Lula, o qual pode ser dado neste mês.

A candidatura própria do PT a governador dá a Ricardo um grande alívio.

O PT apoiou Casagrande formalmente em 2022, fazendo parte da mesma coligação no Espírito Santo. Por tabela, oficialmente, o partido de Lula também apoiou Ricardo, então no PSDB, para vice-governador. O PT está no atual governo Casagrande, ocupando a Secretaria de Esportes.

Já no vindouro governo Ricardo e na sua campanha à reeleição, a conversa é outra. Ricardo não quer o PT com ele, nem associação política alguma com o partido de Lula. Nesse sentido, o palanque próprio do PT, com a candidatura de Helder, convém-lhe bastante, na medida em que lhe “resolve um problema”… pelo menos no plano local.

E quanto ao plano nacional? É aqui que nos propomos responder à mesma pergunta que fizemos acima a Ricardo e da qual ele se esquivou: por que eventual presença do MDB na coligação de Lula poderia ser ruim para seus planos? Em que medida poderia atrapalhar sua própria candidatura a governador do Espírito Santo?

Respondemos: por conta da inevitável associação entre as alianças nas duas esferas, já que, ainda que em níveis diferentes, as disputas se dão simultaneamente. Se fosse outro o momento, mas, mesmo agora, já temos fortes sinais de que, mais uma vez, como em 2018 e 2022, a eleição presidencial vai “invadir” as disputas estaduais e jogar papel importante na definição dos governadores. Não se sabe ainda em qual grau, mas influência terá.

Nesse iminente cenário, uma coisa é Ricardo dizer “nada tenho a ver com Lula” tendo o PT em outro palanque na disputa local e o MDB neutro na disputa presidencial… Outra coisa é ele dizer isso com o MDB na coligação do PT e apoiando formalmente Lula.

Se o MDB ficar oficialmente com Lula, por mais que Ricardo tente dizer “estado é estado, país é país”, “uma coisa não tem nada a ver com a outra”, “são disputas diferentes” etc., ficará difícil se desvincular de todo.

Durante a campanha, independentemente da sua posição pessoal, adversários e eleitores sempre poderão cobrá-lo: ora, mas seu partido está com Lula. Como explicar isso?

É justamente por isso que, para Ricardo e a maioria dos dirigentes regionais emedebistas, convém que a direção nacional mantenha a neutralidade e libere os diretórios locais.

MDB: colcha de retalhos

Desde a redemocratização do país, em 1985, o MDB (antigo PMDB) se firmou como a chamada “federação de interesses regionais”. Ainda muito musculoso e profundamente enraizado do Oiapoque ao Chuí, o partido do centro democrático é de fato uma colcha de retalhos, com notáveis diferenças regionais.

Hoje, por exemplo, o partido está com o PT e apoia Lula em estados como Pará e Alagoas. Uma ala importante da sigla está no governo Lula, com lugares na Esplanada dos Ministérios, como Planejamento (Simone Tebet), Transportes (Renan Filho) e Jader Barbalho Filho (Cidades).

Em compensação, em estados como Goiás e São Paulo, o partido não quer nada com o PT. No estado de Baleia Rossi, o MDB apoia a reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez apoiador dos Bolsonaro.

Essas diferenças regionais, por sinal, manifestaram-se na disputa presidencial de 2022. O partido teve candidata ao Planalto: Simone Tebet. Mas grande parte dos dirigentes regionais penderam mais para o lado de Lula, apoiando o PT de maneira mais velada ou explícita, dependendo do estado.

A então senadora Rose de Freitas, que presidia o MDB no Espírito Santo, foi apoiada pelo PT, numa “aliança branca”, em sua tentativa de reeleição naquele ano. O PT não queria o retorno ao Senado de Magno Malta (PL), que acabou se confirmando.

Ainda em 2022, no 2º turno presidencial, Simone Tebet declarou apoio pessoal a Lula, tendo sido importante na vitória do petista sobre o então presidente Jair Bolsonaro (PL).

E Casagrande?

Quanto ao presidente Lula, a dúvida maior, na verdade, repousa sobre Casagrande: o atual governador apoiará a reeleição do petista, acompanhando a posição do seu PSB? Pedirá votos para Lula?

Assunto para outra coluna.