"Em nome de Deus e de Euclério"
Reviravolta
Entenda aqui por que o deputado decidiu se desfiliar do partido de Lorenzo Pazolini e por que sua nova legenda foi escolhida por ele, com a participação direta do Palácio Anchieta

Perto de encerrar seu segundo mandato seguido na Câmara dos Deputados, o jornalista e apresentador Amaro Neto decidiu mudar de partido para tentar emendar um terceiro mandato. O deputado sairá do Republicanos, partido do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, presidido no Espírito Santo pelo ex-deputado estadual Erick Musso.
Amaro vai se filiar ao Progressistas (PP). O partido de centro-direita é presidido no Espírito Santo pelo também deputado federal Josias da Vitória e, com o União Brasil, integra a Federação União Progressista.
Na tarde desta quinta-feira (26), Amaro se reunirá com o próprio Da Vitória, na sede estadual do PP, em Vitória, e com o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos, que comanda o União Brasil no Estado. É possível que, nesse encontro, já seja realizado algum ato simbólico de filiação de Amaro ao PP.
A saída de Amaro do Republicanos é uma baixa importantíssima para a frente eleitoral encabeçada por Lorenzo Pazolini, pré-candidato a governador do Estado em oposição à frente governista, liderada por Renato Casagrande (PSB). O candidato da situação ao governo é Ricardo Ferraço (MDB).
Em primeiro lugar, a desfiliação de Amaro desfalca e enfraquece a chapa do Republicanos para a Câmara dos Deputados. Ao mesmo tempo, tira do “time Pazolini” um influente cabo eleitoral nas disputas majoritárias (Governo do Estado e Senado).
Apesar do mandato discretíssimo na Câmara, sem pronunciamentos nem envolvimento direto em grandes temas, Amaro na certa ainda preserva, ao menos em parte, a popularidade resultante dos seus muitos anos à frente de um programa policial de TV voltado para as classes C, D e E. É um “rosto público” conhecido e carismático, sobretudo junto a eleitores de mais baixa renda na Grande Vitória.
Esse carisma, ao que tudo indica, já não será colocado a serviço de Pazolini no processo eleitoral. E pode estar sendo transferido para o lado do Palácio Anchieta – leia-se Casagrande e Ricardo Ferraço.
A migração de Amaro do Republicanos para o PP foi costurada dentro do Palácio Anchieta, com participação direta do governador e do vice-governador. Amaro esteve pessoalmente com ambos.
Embora a posição da Federação União Progressista (União Brasil + PP) ainda não esteja definida na eleição para governador, seus principais líderes, hoje, estão mais próximos do “time Casagrande e Ricardo” que do “time Pazolini”. Marcelo Santos é apoiador declarado de Ricardo para governador, enquanto Da Vitória tem um secretário no governo (o de Desenvolvimento Urbano) e mantém estreito diálogo com governador e vice.
Ao longo dos últimos anos, em Brasília, Amaro desenvolveu um relacionamento muito bom com Da Vitória, coordenador da bancada capixaba no Congresso Nacional há oito anos – desde a chegada de Amaro à Câmara dos Deputados.
Outro ator influente nesse deslocamento de Amaro foi o prefeito de Guarapari, Rodrigo Borges. Muito ligado a Amaro, Rodrigo também está de saída do Republicanos. O prefeito é sobrinho do ex-deputado e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-ES) Sérgio Borges, que hoje é dirigente do MDB, partido presidido no Espírito Santo, justamente, por Ricardo Ferraço.
A decisão de Amaro de se desfiliar do Republicanos e sua aproximação com o Palácio Anchieta passam diretamente por Rodrigo Borges.
Apesar dos dois mandatos na Câmara pelo Republicanos, Amaro sempre cultivou boa relação com o governo Casagrande. Quando necessitou, foi bem atendido por Ricardo Ferraço.
Em contrapartida, há algum tempo, o deputado se encontrava insatisfeito com a condução do Republicanos no Espírito Santo, considerada excludente, centrada em Erick Musso e Pazolini. A interlocutores, o deputado se queixava do “diálogo precário” com Pazolini, principal líder político do Republicanos, considerado por alguns players, inclusive alguns aliados, “inacessível” e pouco dado ao diálogo com a própria classe política.
A gota d’água foi a aliança eleitoral firmada por Pazolini com o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), costurada por Erick Musso. Os deputados federais do Republicanos-ES, Amaro e Messias Donato, não foram informados previamente, muito menos consultados, e ficaram sabendo no dia 6 de fevereiro, assim como o resto do mundo, ao ver os dois prefeitos entrarem juntos no desfile das escolas de samba no Sambão do Povo.
A ida de Amaro para o PP, com um grande empurrão do Palácio Anchieta, também pode ser encarada como uma “compensação” feita por Casagrande para atender à Federação União Progressista.
A chapa da federação já tem Da Vitória e Marcelo Santos e vem cobrando de Casagrande a “designação de reforços”, para aumentar suas chances de fazer dois ou mais deputados federais em outubro.
O União Brasil queria, por exemplo, a permanência de Felipe Rigoni, mas o secretário estadual de Meio Ambiente irá para o PSB. Queria também a filiação do médico Serginho Vidigal, mas este deve ir para o Podemos.