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IA leva Hollywood à falência

Algoritmos entram no set e colocam atores, roteiristas e estúdios em alerta

Letreiro de Hollywood, em Los Angeles. Foto: Pexels
Letreiro de Hollywood, em Los Angeles. Foto: Pexels

Hollywood não está sendo invadida por alienígenas, mas por um algoritmo com apetite de tubarão e custo marginal quase zero. A promessa é sedutora: filmes “infinitos” gerados por modelos que não reclamam, não adoecem, não exigem contrato. Mas o custo de saída é alto: a própria indústria criativa. Se desaparecerem os profissionais, desaparece o pacto entre espectadores e obras. Por isso, sindicatos e agentes traçam trincheiras. A Equity, no Reino Unido, anunciou ação direta em massa para rastrear o uso indevido de vozes e imagens de atores em bancos de dados para IA. Transparência é dolorosa quando a vantagem mora no sigilo.

Nos Estados Unidos, a CAA emitiu alerta. Ferramentas como Sora ameaçam o sistema de compensações, créditos e royalties, a economia invisível que sustenta carreiras. Quando grandes estúdios testam modelos sem licença clara, a mensagem para quem cria é inequívoca: “obrigado por servir de catálogo grátis”.

Os sindicatos reagiram com cláusulas duras. A WGA proibiu que IA escreva ou reescreva material coberto por contrato, e a SAG-AFTRA passou a exigir consentimento explícito para réplicas de voz e corpo, remuneração mínima e rastreabilidade digital. Em essência, sem autorização, o artista não vira plug-in descartável. Mas qual será o novo artista revelação? Será humano ou criado por IA?

Enquanto isso, as bilheterias tropeçam. O verão de 2025 nos Estados Unidos e Canadá ficou abaixo do pré-pandemia, e as receitas não fecham quando se troca dramaturgia por fluxo. A automação tenta resgatar margens, mas, sem desejo — aquele impulsionado por riscos, contradições e presença humana, restam apenas cliques vazios.

Um lembrete de que genialidade não depende de orçamento: A Bruxa de Blair, filmado com cerca de US$ 60 mil, arrecadou US$ 248 milhões e redefiniu o terror com câmera trêmula, improviso e imaginação. Provou que a narrativa ainda vale mais que a tecnologia e, ironicamente, mostrou o quanto o sistema pode engolir seus próprios criadores, já que os atores receberam migalhas pelo sucesso.

Agora, o roteiro se repete, mas com um novo elenco: máquinas, processadores e algoritmos. A próxima Hollywood pode não ter letreiro dourado nem tapete vermelho. Pode nascer numa garagem iluminada por monitores e processadores, onde operadores de IA substituem diretores e engenheiros de prompts escrevem o enredo do próximo blockbuster sintético.

Talvez Hollywood esteja para os algoritmos como os carros a vapor estiveram para os de combustão, e, mais cedo do que se imagina, virão os elétricos e os drones tripulados: estúdios inteiramente virtuais, autônomos, sem atores nem câmeras. A transição é inevitável. O que se discute é quem sobreviverá a ela.

“Falência” aqui não é técnica, é simbólica. É o colapso do pacto criativo entre arte e humanidade.

E quando o novo cinema nascer, não se ouvirá mais o “Luzes, câmera, ação!” dos estúdios clássicos, apenas o som discreto de um computador sendo ligado.

E então, uma última tomada: seu negócio, sua profissão, sua empresa… não estariam hoje na mesma posição de Hollywood? Ou pior, naquela da loja que jurava que ninguém abandonaria os filmes vistos em vídeo cassete?


Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Sim Notícias.