Páreo duríssimo
Reação do Palácio Anchieta
Espécie de “porta-voz informal” do governo Casagrande, secretário Tyago Hoffmann critica discurso de Pazolini e atitude surpreendente do prefeito de Vila Velha no Sambão. Mas deixa a porta do camarote do governo aberta para Arnaldinho pensar melhor e voltar atrás
Escrito por Coluna Vitor Vogas em 09 de fevereiro de 2026

“É um erro político grave, porque ele está se colocando como força secundária do projeto de Pazolini, em vez de ser protagonista no nosso exitoso projeto, liderado pelo governador Renato Casagrande.” Assim o secretário estadual de Saúde, Tyago Hoffmann (PSB), avalia a guinada, ou ameaça de guinada, do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), em direção ao prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos).
Ao mesmo tempo, Hoffmann faz um aceno público a Arnaldinho: ainda existe volta possível; por mais espantado que esteja, o governo não considera que o aliado tenha passado do ponto sem retorno. “Se ele revir esse erro grave na carreira política dele, o governador vai recebê-lo de volta”, avisa o secretário.
Hoffmann ainda avalia o discurso do prefeito de Pazolini no Sambão do Povo, na noite de sexta-feira (6), cheio de indiretas a Casagrande (PSB) e ao vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), como “de uma agressividade assustadora” e “de uma deselegância institucional digna de nota”.
Deputado estadual licenciado desde janeiro de 2025, Hoffmann é, notoriamente, um dos mais fiéis aliados de Casagrande e um dos seus interlocutores mais próximos. Formalmente, não exerce o papel de “porta-voz do governo” – cargo que não existe no Executivo Estadual. Mas, ao longo dos últimos anos, desde que ele era secretário de Governo na segunda administração de Casagrande (2019-2022), perdi as contas de quantas vezes Hoffmann se apresentou para dar declarações em momentos políticos delicados – algumas delas, em resposta a adversários –, como uma espécie de porta-voz informal do Palácio Anchieta. É o caso aqui.
No último sábado (7), falando à coluna, Hoffmann avaliou o surpreendente movimento realizado na véspera por Arnaldinho, tido até então como um dos mais importantes aliados do governo Casagrande. Na noite de sexta-feira (6), Arnaldinho chegou ao Sambão do Povo com o “anfitrião da festa”, Lorenzo Pazolini, adversário de Casagrande e pré-candidato a governador este ano por um bloco de oposição.
Debaixo do nariz de Casagrande – por assim dizer: sambando na cara dele –, Arnaldinho ficou o tempo inteiro colado em Pazolini, durante a entrega simbólica da chave da cidade ao Rei Momo, ato inaugural do desfile das escolas de samba, bem como na sequência do evento.
Dando-se as mãos e erguendo juntos os punhos, os dois gritaram “Viva o Espírito Santo” diante das câmeras de TV; em ritmo de pré-campanha, fizeram centenas de fotos e atravessaram lado a lado a avenida algumas vezes, interagindo com a pateia nas arquibancadas e camarotes do Sambão; como se fosse pouco, ainda fizeram posts em collab (publicações conjuntas, dividindo a autoria) na passarela virtual do Instagram. Enfim, um carnaval de sinais que gritam “aproximação política” e que podem resultar numa possível aliança eleitoral.
No ato de abertura do desfile, Casagrande não conseguiu disfarçar sua perplexidade com a atitude do (ex?) aliado e seu desconforto diante de toda a situação. No momento dos discursos, enquanto Pazolini fazia afagos públicos em Arnaldinho e deixava farpas em Casagrande, o semblante do governador era uma mistura de decepção com constrangimento e raiva mal contida. Para não passar recibo, ele bem que tentou controlar a irritação, mas, como diria o sambista, estava “escrito no seu olhar”.
Lembrando o volume de recursos estaduais despejados pelo Governo do Estado em Vila Velha, Hoffmann afirma que a administração de Arnaldinho só tem a aprovação que tem graças à ajuda direta de Casagrande. Nas entrelinhas, quer dizer que o prefeito deve, no mínimo, gratidão ao governador.
“Arnaldinho vai ter que decidir o que fazer. Tem seus méritos, mas, obviamente, o tamanho político que ele ganhou na Prefeitura de Vila Velha se deve aos investimentos do Governo do Estado, que são os maiores da história da cidade. O governo Casagrande está resolvendo problemas históricos de Vila Velha, como o dos alagamentos. Mais de 90% dos recursos de macrodrenagem são estaduais, para dar um exemplo.”
Para Hoffmann, do ponto de vista político-eleitoral, Arnaldinho está trocando a possibilidade de ser protagonista no projeto organizado por Casagrande por um papel certo de “força auxiliar” no projeto protagonizado por Lorenzo Pazolini.
“Em eventual projeto político liderado pelo Governo do Estado, Arnaldinho é protagonista. Ser protagonista não significa ser o candidato a governador, mas ter lugar à mesa em que as decisões são tomadas. Mas o sinal que ele deu ontem é o de que ele decidiu ser força auxiliar em outro projeto que já tem um protagonista certo e no qual ele entra condenado a ser força secundária. Em nenhuma circunstância, o prefeito de Vitória abrirá mão de ser candidato a governador para ele. Por que ser força auxiliar de outro projeto se você pode ser protagonista em um projeto exitoso como o nosso? Isso gera estranhamento, mas é uma escolha que cabe a ele.”
Ao mesmo tempo em que critica a atitude de Arnaldinho, Hoffmann faz questão de deixar claro que o governo não desistiu dele e que as portas do retorno (ou do recuo) estão abertas para o prefeito de Vila Velha voltar atrás, se assim quiser, após refletir melhor:
“Ainda aguardamos, com muita esperança, que Arnaldinho tenha esse entendimento e faça parte das forças políticas que pretendem dar continuidade a um governo extremamente exitoso. Lutaremos para ele estar no nosso grupo e respeitaremos qualquer decisão dele.”
Aí a interpretação é do colunista: a referência de Hoffmann a “mãos peludas” mira o ex-governador Paulo Hartung, que já declarou apoio a Pazolini para governador e cujo partido, o PSD, tem fortes conexões com o Republicanos do prefeito de Vitória.
Um último ponto, de fato intrigante, levantado por Hoffmann, é que, se eventualmente apoiar Pazolini, Arnaldinho pode ter a própria expectativa de poder ainda mais adiada. Se Casagrande renunciar para disputar o Senado, Ricardo assumir em abril e se reeleger governador em outubro, a fila andará mais rápido: como Ricardo não poderá buscar um terceiro mandato em 2030, uma nova janela se abrirá daqui a quatro anos. Já se Pazolini vencer agora em 2026, será candidato natural à reeleição em 2030, com a máquina estadual nas mãos.
“Até do ponto de vista objetivo, é incompreensível o movimento de Arnaldinho. É melhor para ele que Pazolini não chegue ao governo”, resume o secretário de Estado da Saúde.

Pazolini chegou a sugerir, nas entrelinhas, que Casagrande, bem ao lado dele, e por extensão Ricardo Ferraço, seriam governantes da “velha guarda” e representantes da “ancestralidade”: merecem respeito e reconhecimento, mas precisam dar lugar à “modernidade”:
“Como dizia meu saudoso e querido pai, Renato Pazolini […], não dá pra querer o diferente escolhendo o igual. Não dá pra continuar com os mesmos nomes se nós queremos resultados diferentes. Seria ignorância ou seria falta de inteligência? […] Mas temos a certeza absoluta que, assim como fizemos a revolução do samba, respeitando a velha guarda [apontou, sem olhar, para o lado de Casagrande], respeitando a ancestralidade e respeitando aqueles que nos antecederam no passado, mas trazendo a modernidade [apontou para o lado de Arnaldinho] é que nós vamos, Arnaldinho, reescrever essa história. Respeitando o passado, os que estiveram antes de nós, mas com a certeza absoluta de que o futuro será de paz e prosperidade!”
Hoffmann também fez um registro relativo à fala de Pazolini:
“O prefeito de Vitória é de uma deselegância institucional digna de nota. Ali estavam o governador e o vice-governador do Estado. Não é um ringue de boxe. São grupos políticos que, eventualmente, podem ter uma disputa política, no lugar certo e no tempo certo. Mas ali se tratava de um evento institucional. E, institucionalmente, você precisa saber respeitar as pessoas e os cargos públicos que as pessoas ocupam. Não é um debate eleitoral na TV, mas a abertura de um evento que tem recursos da Prefeitura de Vitória e do Governo do Estado. Sem o Governo do Estado, aquela festa não acontece”, frisou o secretário.
“Com isso, o prefeito de Vitória demonstra incapacidade de convivência política com quem pensa diferente dele. Isso é absolutamente assustador! Ali ele falou por último e fez questão de submeter o governador a um constrangimento e uma humilhação, sem a menor necessidade. Quantas e quantas vezes, em inúmeros outros eventos, o governador não falou depois do Pazolini e, se quisesse, poderia ter feito o mesmo? Mas quantas vezes ele fez isso? O governador não é assim. Essa é a diferença.”
Compartilho com os leitores uma observação pessoal, feita in loco.
Ao assistir e cobrir debates eleitorais televisivos nas eleições municipais de 2020 e 2024, não pude deixar de notar um padrão na linguagem corporal de Pazolini, no que só posso interpretar como uma técnica para manter a concentração total e não esquecer o que precisa falar.
Invariavelmente, quando os oponentes estão falando (mesmo que o estejam criticando), ele não esboça a menor reação ou expressão facial. Mantém-se parado e olhando o tempo todo para a frente, como se estivesse concentrado em um ponto fixo diante dele. Não mexe a cabeça um centímetro. Não move um músculo facial. Parado e compenetrado. Está ouvindo com muita atenção, mas é quase como se não estivesse ali, como se a mente dele estivesse em outro lugar.
Não pude deixar de observar que, na cerimônia de abertura do Carnaval de Vitória, pouco antes da entrega simbólica da chave da cidade ao Rei Momo, o prefeito se manteve exatamente assim, com a mesma postura mantida em debates eleitorais.
Casagrande falou antes dele e, durante a breve fala do governador, Pazolini ficou estático, impassível, olhando fixamente para a frente. Aí chegou a sua vez de falar e, quando pegou o microfone, o prefeito se transformou. Fez uma fala vibrante – na certa calculada e com os pontos principais memorizados. Teve afagos em Arnaldinho, indiretas para Casagrande e uma analogia marota, implícita, entre vultos do Carnaval capixaba e a sucessão ao Governo do Estado.
Mas de fato a linguagem corporal lembrou a de um debate eleitoral.
Lá no Sambão do Povo, foliões astutos e atentos aos bastidores políticos costumam brincar que a passarela do samba é dividida ao meio: para um lado, o Governo do Estado; para o outro, a Prefeitura de Vitória. A separação é demarcada pela localização dos respectivos camarotes, um em cada canto da avenida. Bem no meio, fica uma “zona neutra”, em frente à área do recuo da bateria das escolas. Foi ali, bem ali, que ocorreu a cerimônia de abertura. Arnaldinho chegou por ali. Mas dessa vez atravessou para o outro lado…
Na noite de sexta-feira (6), em seu discurso, Pazolini convidou Arnaldinho para a solenidade, ali mesmo no Sambão, que marcou o início das obras da sonhada Cidade do Samba. Foi na segunda noite de desfiles, no sábado (7), às 21 horas. Mas Arnaldinho dessa vez não compareceu.