Análise e bastidores

Entenda o desfile político de Arnaldinho com Pazolini no Sambão

Leia aqui os bastidores, as explicações, a repercussão e as reações ao movimento, no day after do desfile de Arnaldinho com Pazolini, que abalou as estruturas do Sambão do Povo e das eleições no ES

De costas, Arnaldinho e Pazolini, com a camisa da diretoria da MUG; ao lado, Andressa Barcelos e Paula Pazolini

Horas depois da passagem da última escola, as arquibancadas do Sambão do Povo seguiam tremendo. Não por causa do impacto das baterias que por ali passaram mais cedo, mas pelo terremoto causado por um desfile de outra ordem: o dos prefeitos de Vitória e de Vila Velha, Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Arnaldinho Borgo (PSDB), lado a lado, na passarela do samba, pegando a todos de surpresa – especialmente o governo Casagrande – e sinalizando para o mundo inteiro uma forte aproximação política que pode resultar numa aliança eleitoral contra o Palácio Anchieta nas eleições estaduais deste ano.

O Carnaval de Vitória é sempre marcado pela presença de muitos políticos na pista e nos camarotes, ainda mais em ano eleitoral, como é o caso. Todos aproveitam para tirar uma casquinha. Mas, na história do Carnaval capixaba, não há lembrança de um fato político tão importante e impactante ocorrido em pleno Sambão do Povo, diante do olhar estupefato de boa parte do público presente.

O maior “destaque”, no caso, veio no chão do Sambão – e os dois não se fizeram de rogados, passando juntos para lá e para cá algumas vezes, por toda a extensão da avenida, a acenar para a plateia com os punhos erguidos, ladeados pelas respectivas primeiras-damas, no intervalo entre uma e outra escola.

Não vamos dizer que o “desfile de Arnaldinho com Pazolini” tenha se sobreposto ao das próprias escolas (seria um desrespeito às agremiações). Mas, no Sambão do Povo, durante a passagem de alas e carros alegóricos, passistas e comissões de frente, já não se falava de outra coisa. O assunto dominante nas rodas foi a guinada de Arnaldinho, aliado de Casagrande, para o lado de Pazolini, um notório adversário do governador – como reafirmado, nas entrelinhas, pelo discurso do prefeito de Vitória durante a entrega simbólica da chave da cidade para o Rei Momo.

Politicamente, Pazolini ficou onde sempre esteve. Quem fez a inflexão foi Arnaldinho. A travessia do prefeito de Vila Velha – ou “traição”, como tem sido tratada por muitos aliados do governo – já tem sido comparada por alguns ao “abril sangrento” de 2010, quando o então governador Paulo Hartung trocou Ricardo Ferraço por Casagrande na última hora, na cabeça da chapa para sua sucessão.

Analogias à parte, é fato que Casagrande e Ricardo são, mais uma vez, personagens fundamentais neste enredo.

Sem nunca ter escondido sua preferência por Ricardo, Casagrande lançou oficialmente o vice-governador como seu candidato à sucessão, no dia 18 de dezembro. Arnaldinho queria esse lugar: o de candidato do governo. Não o conseguiu. Sentindo-se preterido por Casagrande, passou a estudar alternativas para se reposicionar no jogo eleitoral. Esse é o primeiro ponto-chave para entendermos o movimento do prefeito de Vila Velha. Mas qual alternativa?

É aí que entra nesta história um outro personagem crucial, coadjuvante na aparência, mas protagonista oculto nas articulações de bastidores: o ex-presidente da Assembleia Legislativa Erick Musso. Presidente estadual do Republicanos, Erick é o procurador dos interesses eleitorais do seu partido e de Pazolini. Foi o grande mediador da aproximação e dos diálogos secretamente inaugurados entre os dois prefeitos. Fez, por assim dizer, a ponte entre as duas margens políticas da Baía de Vitória.

O literal desfile público de Pazolini com Arnaldinho, no Sambão, foi resultado de dez meses de negociações, intensificadas após o anúncio de Casagrande em favor de Ricardo, no dia 18 de dezembro. É preciso registrar que, em meados do ano passado, Arnaldinho chegou a flertar mais de uma vez com Erick, recebendo-o e publicando fotos ao lado do articulador de Pazolini – o que nunca foi bem digerido no Palácio Anchieta e sempre foi lido como uma ameaça velada de que, a qualquer momento, o prefeito de Vila Velha poderia atravessar a avenida para o outro lado. Agora, atravessou mesmo. E o samba dele com Casagrande também atravessou…

Chamado por aliados de “Kassab capixaba”, Erick Musso de fato concentra grande influência no desenrolar do processo eleitoral no Espírito Santo. O jogo passa pelas mãos dele. Decidido a formar uma grande frente partidária para dar sustentação a Pazolini e derrotar o Palácio Anchieta (Casagrande & Ricardo), Erick já controla o Republicanos (Pazolini) e tem grandes chances de compor com o PSD (Paulo Hartung e, possivelmente, Sérgio Meneguelli). Agora, atrai Arnaldinho e, com ele, o PSDB – presidido desde dezembro pelo prefeito de Vila Velha –, além de seguir dialogando com outros partidos, como o PL e a Federação União Progressista.

Isso sem contar o deputado federal Evair de Melo (PP), um dos primeiros a embarcar no projeto de eleger Pazolini. Firme em seu compromisso de apoiar o delegado licenciado, Evair foi outro que “desfilou” na comissão de frente de Pazolini no Sambão do Povo

Pazolini, Hartung, Meneguelli, Evair e, agora, Arnaldinho: só aí já são cinco players competitivos que podem ser candidatos a cargo majoritário no Espírito Santo (governador ou senador), equilibrando as forças com o movimento eleitoral liderado por Casagrande.

Mas a “traição”, desculpem, atração de Arnaldinho para esse mesmo movimento é vista como o “golpe de mestre”.

Onde Arnaldinho vai jogar?

A esta altura, não estão claras nem bem definidas as posições que caberão a cada um, objetivamente, numa chapa majoritária resultante desse encontro. Por óbvio, se tal aproximação realmente der samba e redundar numa aliança eleitoral, só um dos dois (Arnaldinho ou Pazolini) poderá ser candidato a governador.

Absolutamente ninguém, em qualquer um dos lados em disputa, acredita que Pazolini cederá o lugar a Arnaldinho (até porque este é quem está “chegando” ao movimento). Muito mais provável é que o prefeito de Vila Velha desista de disputar o governo para apoiar Pazolini contra Ricardo.

Para tanto, Arnaldinho pode até se manter na Prefeitura de Vila Velha, em vez de renunciar em abril, e assumir a posição de principal cabo eleitoral de Pazolini em toda a Grande Vitória.

Mas atenção: pelo que a coluna apurou no entorno de Pazolini, os “diálogos secretos” (agora não mais tão secretos) incluem a possibilidade de Arnaldinho ser candidato a senador pela mesma coligação – completando a chapa majoritária encabeçada pelo prefeito de Vitória. Essa ideia está posta na mesa deles, para valer.

O plano traçado, neste caso, prevê uma dupla renúncia em abril: ambos se desligarão dos cargos e ficarão igualmente disponíveis para disputar as eleições. Esse seria o próximo passo da estratégia desenhada.

E quanto a uma chapa Pazodinho, com um na cabeça e outro de vice-governador, como muitos começaram a especular ainda no Sambão do Povo? Não, isso está fora de questão. Nenhum dos dois quer ser vice.

O tamanho dessa parceria

De todo modo, nesse movimento de oposição ao Palácio, todos partem de uma certeza: a junção de forças de Pazolini com Arnaldinho (combinando o carisma, a juventude e a boa avaliação de ambos) potencializa sumamente as chances de vitória sobre o candidato do Palácio Anchieta; a união dos dois prefeitos muito bem votados em 2020 e 2024 seria o único fato capaz não somente de igualar, como até superar o poderio do governo Casagrande.

“Só tem uma coisa mais forte que 70 prefeitos, 25 deputados estaduais, 600 vereadores, influência em outros Poderes, R$ 8 bilhões em investimentos no interior: é a junção desses dois”, sintetiza uma fonte ligada ao grupo de Pazolini.

A crença ali, portanto, é a de que os dois juntos valem mais que tudo isso; são mais fortes que a soma de ativos eleitorais do Governo do Estado, incluindo a cartela de resultados e a ótima avaliação da gestão de Casagrande com Ricardo. Para os aliados mais entusiasmados de Pazolini, se vier ao governo com o apoio de Arnaldinho, o prefeito de Vitória se torna simplesmente imbatível. E aí não teria nem para Ricardo nem para ninguém…

“São duas potências que resolveram se unir para fazer uma disrupção e uma mudança geracional na política capixaba. Decidiram se unir para liderar um novo projeto no Espírito Santo, um grande projeto de renovação geracional. Toda essa repercussão que estamos vendo já nestas primeiras horas é fruto do tamanho deles”, formula um aliado de Pazolini.

Guardem a data: dia 6 de fevereiro de 2026. Foi um dia de grandes escolas, mas, também, de uma grande escolha. Uma escolha, por parte de Arnaldinho, que pode mudar os rumos da eleição para governador do Espírito Santo neste ano e, arrisco-me a dizer, quiçá também o das próximas, em 2030 e 2034.

A conferir se essa aliança em construção realmente dará liga (sem trocadilho com a Liesge).

As reações no governo ao “Carnaval sangrento”

A coluna também ouviu interlocutores de Casagrande para saber como o “Carnaval sangrento” repercutiu e foi recebido dentro do Palácio Anchieta. O primeiro ponto destacado pelas fontes governistas, antes mesmo de passarem a analisar o movimento de Arnaldinho, foi o teor do discurso de Pazolini no Sambão do Povo, bem ao lado de Casagrande, no ato de entrega simbólica da chave da capital para o Rei Momo.

O discurso foi considerado “desrespeitoso” e “humilhante” para o governador. Casagrande, segundo uma fonte, ficou “abismado”. A auxiliares próximos, disse nunca ter passado por algo parecido em seus 40 anos de vida pública.

A cerimônia em questão é um dos pouquíssimos atos públicos em que o prefeito de Vitória tem a oportunidade de discursar depois do governador e ser o último a falar, ficando com a palavra final.

Visivelmente constrangido com a chegada de Arnaldinho com Pazolini, Casagrande fez uma fala curta e protocolar (parecia querer sair logo dali), destacando os investimentos do Governo do Estado no Carnaval. Em sua vez, Pazolini fez uma fala eivada de conotação eleitoral, com direito a uma alfinetada explícita em Casagrande e Ricardo (também presente).

Em síntese, para bons entendedores, Pazolini insinuou que Casagrande e Ricardo são políticos da “velha guarda” e representantes da “ancestralidade” – para bom entendedor: ultrapassados. E que é preciso abrir espaço para a “modernidade” no Espírito Santo. Casagrande não teve “direito a réplica”.

“O governador ficou arrasado, se sentindo humilhado. Todo mundo ficou muito impactado. Pazolini não precisava fazer isso. Só prova que não tem condição de conviver com a diversidade”, declarou um colaborador de Casagrande.

Vai ter recuo?

Outra interpretação que circula no meio governista é a de que tudo pode não passar de um grande blefe por parte de Arnaldinho. Algo, assim, como um ultimato para Casagrande – também ouvimos a palavra “chantagem”.

Como nunca escondeu de ninguém, Arnaldinho está convencido de que Ricardo não tem chances de vencer a eleição ao governo. Mesmo assim, Casagrande firmou o pé, insistiu com Ricardo e o lançou publicamente em dezembro. Mas Arnaldinho não teria desistido de “abrir os olhos de Casagrande” e tentar convencê-lo a trocar Ricardo por ele. Nesse caso, o desfile ao lado de Pazolini seria o recado mais explícito possível para o governador, o qual poderia ser assim interpretado (em nossa livre tradução):

“Governador, o senhor ainda tem dois meses, ainda dá tempo de reavaliar sua decisão. Pense melhor e volte atrás. Se o senhor for comigo, tem chances de ganhar. Eu sou o único capaz de derrotar Pazolini. Se insistir com Ricardo, vai perder. E então eu vou com Pazolini. É aí que vocês perdem mesmo…”

A questão é que, ao se exibir com Pazolini como fez, Arnaldinho teria dado um passo largo demais – um passo do qual passa a ser muito difícil voltar atrás, para compor com o grupo de Casagrande. É bem verdade que, apesar das imagens serem daquelas que falam por si, em momento algum ele mesmo falou explicitamente em “aliança eleitoral com Pazolini”…

Sem conversa

Casagrande não vai procurar Arnaldinho para conversar. De jeito nenhum.

Mas se o próprio prefeito fizer o “recuo da bateria”, logicamente, ninguém deixará de “aceitar de volta” o volátil aliado, com todo o seu capital político-eleitoral…

Como diz um governista: “O rio não se enche só com água limpa”.

Crime premeditado”

De outra fonte governista, a coluna ouvia a expressão “crime premeditado” em referência à estratégia preparada por Pazolini e Arnaldinho para causarem o impacto que de fato causaram.

Suas respectivas equipes de comunicação e marketing já estavam a postos para postar tudo em suas redes sociais, quase em tempo real, com altíssimo número de curtidas, comentários etc. dos respectivos assessores.

Mas é Carnaval…”

Questionado ainda no asfalto do Sambão sobre sua chegada apoteótica com Pazolini, Arnaldinho limitou-se a dizer, com um sorrisão aberto: “É Carnaval!”

Lembremos, pois, o clássico: “Mas é Carnaval… / Não me diga mais quem é você / Amanhã tudo volta ao normal…”

“Normal” foi como Casagrande e Ricardo, a poucos metros, disseram encarar a atitude de Arnaldinho. Resta saber se, “amanhã”, tudo realmente “voltará ao normal” entre eles.

Depois do que se viu no Sambão, não parece que será o caso.

Você pagou…”

Por falar em clássicos, o samba de Beth Carvalho foi muito cantarolado nos camarotes, por alguns espectadores incrédulos: “Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão…”

Já um aliado de Casagrande citou uma frase atribuída a Tancredo: “A política gosta muito da traição, mas odeia o traidor”.

Outro deles reagiu com ironia: “A novidade do dia é a notícia mais velha da política: a traição”.

MUG: Muito Unidos Governantes

Chegar juntos à festa – ok

Posar juntos para um milhão de fotos – ok

Fazer “colab” no Instagram – ok

Atravessar o Sambão juntos, com as respectivas esposas – ok

Mas o ápice do entrosamento de Pazolini com Arnaldinho se deu durante o desfile da Mocidade Unida da Glória (MUG). É a escola do coração de Arnaldinho (que aí, sim, tem uma escolha fácil, pois é a única representante de Vila Velha no Grupo Especial, enquanto Pazolini não pode expressar preferência, pois há algumas de Vitória).

Durante o belo desfile da MUG, os dois ficaram o tempo todo lado a lado, em frente à area de recuo da bateria, com direito ao mesmo uniforme: a camisa da diretoria da escola canela-verde (foto com que abrimos a coluna).

Simbolicamente, foi um gesto de deferência de Pazolini a seu mais novo best.

Matching pajamas

Para não perder a piada: ficamos a imaginar se os dois foram dormir à noite, cada um em sua casa, com pijamas combinando (risos)…

Destruidor de casamentos

O Carnaval é aquele feriado que destrói alguns casamentos (ou gera filhos). Na noite de sexta, podemos ter testemunhado o fim do matrimônio político de Arnaldinho com Casagrande. E o embrião de uma nova parceria político-eleitoral, do primeiro com Pazolini…