VAI FALTAR IMÓVEL
2026 exige ação — não previsão
Um guia estratégico para 2026: ciclos econômicos, juros, eleições e o papel do mercado imobiliário na proteção de patrimônio, com foco em Vitória e no Brasil
Nas viradas de 2024 e 2025, escrevi duas cartas que, relidas hoje, não falavam sobre anos específicos. Falavam sobre ciclos. E ciclos não pedem adivinhação. Pedem leitura.
A carta de 2024 partia de um alerta simples: não compre imóveis sem saber por quê.
A de 2025 trouxe Heráclito para lembrar que nada permanece igual — nem o mercado, nem o investidor, nem o país.
O fio condutor entre ambas é claro: quem ignora a dinâmica dos ciclos costuma decidir tarde, mal ou por impulso.
É com essa lente que precisamos olhar para 2026.
O filme que muitos esqueceram de assistir
A avalanche de conteúdos nostálgicos sobre 2016 nas redes sociais ajuda a entender um fenômeno curioso: muita gente lembra onde estava naquele ano, mas pouca gente consegue explicar o que aconteceu dali em diante — e como isso moldou o país, a economia e o mercado imobiliário.
Vale puxar esse fio.
2014 foi o ano da Copa do Mundo no Brasil, do traumático 7×1, mas também da deflagração da Operação Lava Jato, de escândalos de corrupção e manifestações pelo país. O mercado imobiliário começava a perder força, ainda embalado por promessas de valorização e obras de infraestrutura que não se sustentaram.
Entre 2015 e 2016, mergulhamos em uma recessão profunda. Para conter a inflação, a taxa Selic voltou aos dois dígitos. O custo do capital disparou, o crédito secou, o desemprego cresceu e a confiança desapareceu. O mercado imobiliário praticamente parou.
A inflexão veio em 2016, com o impeachment da então presidente Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer. Um governo de baixa popularidade, mas marcado por forte reorganização institucional, com destaque para a reforma trabalhista e o teto de gastos.
2017 foi um ponto de interseção. Após oito quedas trimestrais consecutivas, o PIB voltou a crescer. A Selic saiu de 13% ao ano em janeiro para cerca de 7% em dezembro. Crédito e confiança começaram a retornar, tapumes voltaram às ruas e obras foram retomadas.
Em 2018, as eleições presidenciais dominaram o noticiário. Com um ambiente econômico melhor, o mercado imobiliário voltou a ganhar tração, especialmente nos imóveis prontos, terrenos e novos lançamentos.
2019 consolidou a recuperação: PIB em crescimento, inflação controlada, aprovação da reforma da Previdência, MP da Liberdade Econômica e a Selic atingindo 5% ao ano — o menor patamar desde o início da série histórica. O setor imobiliário respondeu com força: estoques reduzidos, preços reagindo e muitos projetos saindo do papel.
2020 seria um ano excepcional, mas a COVID-19 mudou tudo. Para estimular a economia, a Selic caiu a 2% ao ano — o menor nível da história. O efeito foi imediato: liquidação de estoques, escassez de produtos específicos e forte alta de preços.
Em 2021, a inflação voltou com força. A Selic subiu rapidamente para 9,25%. O estoque foi sendo recomposto, mas os imóveis prontos passaram a registrar menos opções e preços sendo redefinidos a cada venda. 2022 trouxe o maior PIB desde 2013, o menor desemprego desde 2014 e uma Selic de 13,75%. Mesmo com juros altos, o mercado imobiliário — especialmente em regiões consolidadas como Vitória — entrou em outro patamar: vendas realizadas, novos preços instaurados, referências redefinidas.
2024 e a constatação incômoda: o Brasil ainda está barato
Foi nesse contexto que, em 2024, retomei uma reflexão essencial: não compre imóveis sem saber por quê.
Ao refazer contas em dólar, usando a moeda mais forte do mundo como referência, ficou claro que muitos patamares de preço no Brasil ainda se assemelham aos de 2011 e 2012.
O Brasil está barato.
O mercado imobiliário, em termos relativos, ainda está barato. Enquanto isso, setores como petróleo e agronegócio seguem performando, e estados como o Espírito Santo combinam ambiente de negócios favorável, qualidade de vida, baixo desemprego e investimentos estruturantes em curso.
Um calendário lotado de encruzilhadas
2026 reúne características raras em um mesmo ano:
- Ano eleitoral, com elevado ruído político
- Copa do Mundo, impactando produtividade e decisões
- Número elevado de feriados, comprimindo o ano útil
- Possível início de queda da Selic, ainda que gradual
- Dívida pública em trajetória ascendente frente ao PIB
Esse conjunto costuma produzir um erro clássico: confundir estímulo conjuntural com melhora estrutural.
O Brasil já viveu esse filme. E, quase sempre, quem decide olhando apenas o clima do momento paga mais caro depois.
Juros podem cair. O risco não.
Mesmo com a Selic cedendo, o pano de fundo fiscal permanece tensionado. A curva da dívida não se resolve com um Copom mais benevolente. Isso torna o capital mais seletivo, mais exigente e menos tolerante a promessas frágeis.
Além disso, é preciso dizer o óbvio: renda fixa não é patrimônio. CDI não constrói legado. Em um mundo em que ativos reais como ouro e prata batem recordes, bolsas renovam máximas e moedas perdem poder de compra, a corrida por ativos reais é global.
Em Vitória, isso é ainda mais evidente. A cidade aparece constantemente em rankings de qualidade de vida e já figura entre os metros quadrados mais caros do país. Em alguns bairros e perfis de produto, já falta imóvel, tanto para compra quanto para locação. Esperar o “momento perfeito” costuma significar pagar mais caro depois.
O erro de esperar o cenário clarear
Todo ano eleitoral produz a mesma frase: “vou esperar passar”.
O problema é que o mercado imobiliário se move antes da fotografia ficar nítida. Quando a confiança volta ao noticiário, os bons ativos já giraram.
Quem entendeu 2024 e assimilou 2025 chega a 2026 com uma vantagem clara: não precisa de pressa, mas não pode paralisar.
O que 2026 exige do investidor imobiliário
Não é um ano de apostas binárias. É um ano de posição bem escolhida:
- Liquidez acima de bravata
- Renda real acima de promessa de valorização
- Escassez urbana acima de modismo
- Qualidade do ativo acima de timing político
Em cidades consolidadas como Vitória, onde o território é limitado e a demanda é resiliente, o imóvel bem localizado segue cumprindo sua função histórica: proteger patrimônio ao longo do tempo.
Conclusão: o rio segue correndo
Heráclito já dizia:
“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontram as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela tensão dos opostos, e o real é sempre fruto da mudança.”
Os anos nunca são os mesmos.
O que importa não é a fotografia, mas o filme.
Oportunidades não voltam.
E 2026 não é sobre prever — é sobre entender onde você está no rio e agir com consciência antes que a correnteza mude novamente.