CARREIRA EM CONSTRUÇÃO
Trocar de carreira depois dos 30 é loucura? E depois dos 60?
Deixa eu te explicar o que está acontecendo com a sua carreira.
Independentemente da sua idade ou do momento profissional que você está vivendo, é muito provável que essa pergunta já tenha passado pela sua cabeça, mais de uma vez, inclusive.
A gente ouve falar de oportunidades o tempo todo. Lê tendências de emprego, matérias sobre o futuro das profissões, acompanha histórias de pessoas que deram certo, de outras que estagnaram, de algumas que parecem ter “chegado lá”. Tudo isso vai formando o nosso repertório sobre carreira. E, sem perceber, vai se tornando referência e mais do que isso: validação.
Um dos grandes pontos que quero trazer aqui é o quanto usamos a validação externa como régua e o quanto, muitas vezes, a colocamos acima de tudo. É claro que é importante estar conectado com o tempo, com o zeitgeist, com o que está acontecendo no mundo. Mas, ao mesmo tempo em que vivemos uma aceleração digital intensa, a gente precisa lembrar que, a cada 15 ou 20 anos, surge uma inovação que realmente se consolida e permanece. E inovação não é só aplicativo, não é só plataforma, não é só tendência observada de fora.
Essa sensação constante de que vamos ser substituídos, de que precisamos mudar de carreira o tempo inteiro, não pode ser tratada como pânico. Precisa ser uma decisão consciente. Claro, levando em conta tendências, transformações e movimentos do mercado, mas, acima de tudo, levando em conta as suas próprias regras.
Estamos vivendo um momento importante de amadurecimento da ideia de carreira, não existe mais certo ou errado. Não existem mais do’s and don’ts. Não existe mais um caminho único que possa ser confirmado como o correto. Independentemente de você estar empreendendo, se candidatando a uma vaga, estudando para um concurso público, aprofundando uma pesquisa acadêmica ou até já aposentado, mas com vontade de continuar contribuindo, existe uma pergunta que vem antes de todas as outras: quais são os seus limites?
E a verdade é que a gente quase não fala sobre isso, então antes de discutir se é loucura trocar de carreira depois dos 30, dos 60 ou em qualquer outra idade, é preciso dar um passo para trás. Não existe loucura nem lucidez absoluta aqui. O que existe são escolhas feitas a partir de experiências, feedbacks, informações e, principalmente, testes reais. Sem se colocar em movimento, sem experimentar, a gente nunca sabe de fato.
Quando falo de limites, falo daquele alerta silencioso que aparece quando estamos em lugares que não nos cabem mais. Onde nos sentimos limitados, onde decisões são tomadas por nós, onde a trajetória deixa de ser nossa. Para mim, isso é um sinal claro de que não é ali que eu devo estar.
A carreira é minha, a trajetória é minha, a construção é minha. E sempre que você permitir, qualquer vínculo profissional vai tentar ter ingerência sobre isso, seja um chefe, um cliente, uma instituição, uma universidade ou um órgão público.
Por isso, antes de rotular como loucura qualquer mudança, vale se perguntar:
O que eu ainda aguento?
O que eu não aguento mais?
O que é importante para mim hoje e o que deixou de ser?
Que tipo de validação eu espero de cada escolha?
Que oportunidades isso pode me trazer e a que custo?
No fim, tudo volta para o autoconhecimento. Independentemente de termos 10 ou 40 anos de trajetória profissional, a gente já conhece um pouco de si. Já sabe como certas experiências nos fizeram sentir. Esses rastros são preciosos, eles dizem muito sobre o que é essencial para cada um.
No meu caso, a liberdade sempre foi central. Liberdade de horário, de agenda, de poder tirar um dia off, de circular por diferentes contextos. Entendendo que meu trabalho acontece em formatos diversos. Isso, para mim, é inegociável.
E é claro que a liberdade encontra limites dentro de ambientes corporativos tradicionais, que exigem presença integral, carga horária fixa e disponibilidade total. Por isso, hoje, um cargo público, um concurso ou uma posição corporativa clássica não fazem sentido para mim. O preço da falta de liberdade é alto demais para mim.
Em contrapartida, esse caminho também não oferece estabilidade, previsibilidade ou a sensação de segurança que muita gente busca. Mas, depois de tantos anos observando trajetórias, mentorando profissionais, dando aulas e palestras, cheguei a uma conclusão incômoda: ninguém tem segurança absoluta.
Então, o que é segurança para você? E até que ponto isso realmente importa?
No meu caso, a criatividade nasce da diversidade de experiências. De uma manhã em um evento ouvindo algo completamente novo, de um almoço que vira uma conversa estratégica, de uma reunião em outro espaço, de uma entrega feita à tarde, de uma aula ou mentoria no fim do dia. É dessa circulação que vem a minha potência.
Por isso, a pergunta sobre trocar de carreira depois dos 30 ou dos 60 não tem resposta universal, é uma decisão profundamente pessoal. O que é loucura para uns pode ser exatamente o que faz sentido para outros. Tudo depende do repertório, da visão de vida e do momento de cada um.
Se este texto servir para alguma coisa, que seja para ampliar o seu campo de visão. Existem muitas formas de construir uma trajetória profissional, muitas versões possíveis. E isso, no fim, é uma boa notícia. Porque assumir as próprias decisões, e não deixar que outros decidam por você, talvez seja o movimento mais consciente que uma carreira pode ter.
Pílula Dourada
Não é sobre a idade em que você muda de carreira, é sobre o momento em que você decide assumir o comando dela.