Eleições 2026
Última vez

Ao subir à tribuna da Assembleia Legislativa para discursar, na tarde de segunda-feira (2), o governador Renato Casagrande (PSB) começou a descer as escadarias do Palácio Anchieta. Na sessão solene de instalação do ano legislativo de 2026, o clima foi de despedida. Essa foi a última vez que Casagrande falou aos deputados, no plenário, como governador do Espírito Santo. Ele mesmo o confirmou: “De alguma maneira, é uma certa despedida”.
Até o fim do atual mandato de Casagrande, não há outra cerimônia prevista que exija a presença do governador em plenário. E isso se ele cumprir o atual mandato até o fim, em janeiro do ano que vem. Muito mais provável é que encurte seu terceiro governo. A esta altura, pouquíssima gente duvida que ele renunciará ao cargo no comecinho de abril para ser candidato ao Senado, transferindo a faixa para o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), candidato à sucessão apoiado por ele e assim anunciado oficialmente no dia 18 de dezembro.
Respondendo à pergunta da coluna, o próprio Casagrande disse ainda não ter decidido se será, de fato, candidato a senador: “No mês de março”. Já Ricardo respondeu: “Vou aguardar, com muita humildade, a decisão do governador. […] A decisão dele é a minha decisão”. Mas esse é o passo natural, desejado por todos os aliados de ambos. Um exemplo eloquente partiu do anfitrião da cerimônia, o presidente da Assembleia, Marcelo Santos (União).
Um dos principais apoiadores da dupla, Marcelo, em sua vez de usar a tribuna, chamou Ricardo de “futuro governador”. A “profecia” foi feita diante do vice-governador. Ricardo assistiu aos oradores da mesa de autoridades, sentado entre chefes de outros Poderes e instituições estaduais, incluindo o TJES, o MPES, o TRE-ES, o TCES e a Defensoria Pública.
Logo após a sessão, em entrevista coletiva, Marcelo fez sua previsão: “Conversei com o governador na semana passada sobre a possibilidade de ele sair. A gente espera que ele saia. Eu, particularmente, acredito. Mas ele naturalmente vai anunciar isso no tempo certo”. É uma aposta que pagará pouco nas casas especializadas.
Fazendo jus ao termo, a sessão de fato foi bastante “solene”. O tom geral foi institucional. Mas, na abertura do último ano da atual legislatura da Ales, com as eleições de 2026 batendo à porta, não poderiam faltar mensagens subliminares com nítido enfoque eleitoral. Casagrande não deixou por menos.
Falando de improviso, sem mencionar explicitamente o processo eleitoral – muito menos nominar qualquer pessoa –, o governador enunciou o que, segundo ele, o povo capixaba não deseja de modo algum a partir de 2027: voltar a um passado político marcado pelo “autoritarismo”.
Casagrande iniciou seu discurso chamando a atenção para a postura “arrogante” e “violenta” de alguns governantes pelo Brasil e pelo mundo.
“Estamos vivendo um momento em que é preciso fazer uma força contrária ao excesso de arrogância, de prepotência, ao excesso de violência que a gente vê em alguns representantes das nossas instituições no Brasil, em diversos outros estados do Brasil e no mundo em geral.”
Passando do geral para o local, Casagrande afirmou que a “capacidade de convivência” é “o segredo do nosso Estado”, “a pedra angular que sustenta todo o nosso projeto de Estado”.
“É através do diálogo [que conseguimos os resultados]. É através da compreensão de que quem governa tem que governar com humildade, tem que saber ouvir, conviver com quem pensa diferente. A beleza da vida está na diferença. Não está na igualdade, em todo mundo pensar do mesmo jeito.”
Sempre sem citar nome algum, ele fez uma indireta que pareceu direcionada a adversários do passado e do presente (ao menos assim soou).
“Você pode governar com autoridade sendo humilde e tendo capacidade de diálogo. Para você ter autoridade, você não precisa ser arrogante, prepotente e autoritário, achar que o governo é vertical, de cima pra baixo. A gente tem que compreender que este é o momento de ter uma sociedade que seja horizontal, que o governante tem que estar aberto a dialogar com todo mundo, porque isso é o que a sociedade deseja hoje.”
À saída do plenário, perguntamos a Casagrande sobre o teor do seu pronunciamento. Ele negou que tenha sido direcionado para quem que que seja. Afirmou que se trata de uma “tese” defendida por ele – ou seja, um princípio geral, que vale para todos os agentes públicos, não apenas A ou B.
“É uma tese. Os governantes de hoje têm que estar atualizados, renovados com a forma de governo. Hoje não tem mais espaço para governantes que trabalham de forma piramidal. Hoje, toda ação de governo é horizontal. As pessoas falam com o governador na hora que elas quiserem falar, e você pode até fingir que não está ouvindo, mas você tem que ouvir, porque é isso que marca um jeito moderno de governar.”
Ele prosseguiu: “Ninguém quer mais os governos do passado, que governavam de forma piramidal, de cima pra baixo, e todo mundo tinha que se enquadrar a esse formato. Nem as pessoas nem as instituições. As instituições se acostumaram com esse jeito de a gente dialogar, se sentar à mesa, ter um trabalho compartilhado… é isso que a gente defende.”
Ricardo: “humildade e pés no chão”
Também questionamos Ricardo sobre as mensagens contidas no discurso de Casagrande. Ele deu sua interpretação:
“Uma das características do governador Casagrande e do nosso governo, do nosso modo de governar, é fazer do diálogo um exercício diário, compartilhando com os demais Poderes. O que o governador está dizendo é que é fundamental que a gente mantenha essa prática e essa característica: governar com humildade, com os pés no chão, conversando. Isso faz uma diferença muito grande e é isso que tem dado certo no Espírito Santo”.
Casagrande: “doença da polarização”
Voltando ao discurso de Casagrande, o governador não fez, como alguns esperavam, uma prestação de contas mais detida sobre seus sete anos seguidos de governo (desde janeiro de 2019). Mas, falando de improviso, destacou “momentos desafiadores”, como eventos climáticos extremos e a pandemia do novo coronavírus. Mas o maior desafio, segundo ele, foi e segue sendo a “doença da polarização”.
“A gente não tinha respeito”
Reconhecendo o papel cumprido pela Assembleia, o governador também ressaltou alguns resultados do seu governo. “Nós juntos fizemos a transformação deste Estado, enfrentando juntos todos esses desafios.”
Casagrande salientou a redução da taxa de homicídios (1.109 em 2019, ante 796 em 2025), a excelente posição do Espírito Santo no ranking do Ideb e a ampliação do volume de investimentos (R$ 900 milhões em 2018 contra R$ 4,8 bilhões em 2025).
“A gente conquistou, no Brasil, todo o respeito. A gente não tinha respeito. A gente circulava pelo Brasil e tinha que ficar explicando o que é o Espírito Santo. Hoje a gente vê respeito dos brasileiros.”

Promessa de recordes: recado para Ricardo
De certo modo, Casagrande encerrou o discurso com uma promessa de quebra de recordes também em 2026, mas se voltando diretamente a Ricardo e jogando a responsabilidade para ele – em mais um forte sinal de que passará o bastão para seu vice-governador em abril.
“Se 2025 foi recorde, 2026, Ricardo Ferraço, vai ser ainda um ano muito melhor do que 2025.”
Falando à imprensa, Ricardo explicou assim: “Eu diria o seguinte: nada é tão bom que não possa melhorar. Ano a ano, temos ampliado a nossa capacidade de investimento sem perder de vista a premissa fundamental da responsabilidade fiscal. […] Se foi bom 2025, 2026 pode ser melhor ainda”.

Marcelo Santos: “Fará falta”
Ressaltando a “virada de ciclo” prevista para este ano, Marcelo Santos também declarou solenemente, da tribuna, que Casagrande “fará muita falta no Espírito Santo”. Completou, assim, o clima de despedida.