Segurança

Vitória completa 600 dias sem feminicídio

Violência contra mulher; feminicídio
Feminicídio. Foto: FreePik
Violência contra mulher; feminicídio

Feminicídio. Foto: FreePik

Vitória chegou a 600 dias sem o registro de feminicídio. O marco, contabilizado até quinta-feira (28), coloca a capital capixaba entre as cidades brasileiras com maior intervalo recente sem mortes de mulheres por violência de gênero e sustenta um dado central: vidas foram preservadas a partir de uma rede contínua de prevenção, acolhimento e resposta rápida. Para marcar a data e reafirmar o compromisso com a proteção das mulheres, a Prefeitura de Vitória realiza uma série de ações ao longo desta quinta-feira (28), envolvendo orientação direta à população e atividades simbólicas que remetem à preservação da vida.

Ações no território

As atividades começam às 7h30, com a ação “Maria da Penha vai à Feira”, na feira livre da Praia do Canto. A iniciativa leva informações sobre direitos, canais de denúncia e acolhimento às mulheres, além da distribuição de mudas à população, associando o cuidado cotidiano à prevenção da violência. Por volta das 11h30, em frente ao Shopping Vitória, serão distribuídas sementes de pau-ferro, árvore nativa da Mata Atlântica. Cada semente representa um dia sem feminicídio na capital e a expectativa de continuidade desse cenário.

Políticas públicas e integração

O secretário municipal de Cidadania, Direitos Humanos e Trabalho, Luciano Forrechi, afirma que o resultado é fruto de uma construção coletiva. Segundo ele, chegar a 600 dias sem feminicídio “é resultado de um trabalho sério, integrado e, acima de tudo, comprometido com a vida”, mas o desafio permanece diário, já que “cada ação e cada política pública existem para garantir que as mulheres de Vitória sigam vivas, protegidas e com seus direitos respeitados”. A atuação envolve a Prefeitura de Vitória, o Judiciário, forças de segurança, entidades da sociedade civil e a própria população, com foco em prevenção, monitoramento e atendimento rápido às situações de risco.

Rede de proteção e acolhimento

Entre os principais serviços disponíveis está o Centro de Referência em Atendimento à Mulher em Situação de Violência, o Cramsv, que oferece acompanhamento psicológico, social e orientação jurídica. As mulheres também podem acessar atendimento médico especializado na Casa Rosa, solicitar medidas protetivas, ser encaminhadas para abrigo em casa sigilosa e contar com o Botão Maria da Penha. O dispositivo, utilizado por mulheres com medida protetiva, é carregado de forma discreta e, ao ser acionado, envia um alerta imediato à Central de Monitoramento da Guarda de Vitória, permitindo resposta rápida em situações de emergência. Para a coordenadora do Cramsv, Fernanda Vieira, o número não pode ser analisado de forma isolada. Ela explica que, por trás da estatística, existem histórias interrompidas a tempo e destaca que o trabalho diário passa por “acolher, orientar e caminhar junto com cada mulher que procura ajuda”, reforçando que a prevenção começa com informação e uma rede que funcione de forma integrada. A subsecretária da Mulher, Deborah Alves, ressalta que o município segue investindo em políticas estruturantes e avalia que o enfrentamento à violência exige planejamento e envolvimento social. Para ela, ações educativas e o fortalecimento da rede são decisivos para que a marca não seja apenas comemorada, mas mantida ao longo do tempo. Atendimento que transforma Bia, 50 anos, moradora da capital, é uma das mulheres atendidas pelo Cramsv. Com o nome alterado para preservar sua identidade, ela conta que viveu mais de 20 anos em um relacionamento abusivo e que o suporte psicológico foi decisivo para romper o ciclo de violência. Ela relata que era constantemente desqualificada pelo ex-marido, mesmo tendo profissão, e que a situação se agravou após descobrir traições, passando a sofrer violência psicológica e patrimonial. No Cramsv, afirma ter recuperado a autoestima e recebido orientações para sair da situação. Bia lembra que chegava a algumas consultas sem conseguir falar, tomada pela depressão, e destaca que a medida protetiva foi essencial para conseguir seguir em frente. Hoje, segue em acompanhamento e resume o processo dizendo que voltou a reconhecer quem é.

Números do atendimento

De 2022 a 2025, o Cramsv atendeu 10.723 mulheres vítimas de violência doméstica em Vitória. No período de 2006 a 2025, o total chega a 34.534 atendimentos. Atualmente, 33 Botões Maria da Penha estão ativos no município e, entre 2022 e 2025, o dispositivo foi acionado 47 vezes.

Saúde e assistência integrada

Na área da saúde, a Casa Rosa atua como centro especializado da Secretaria Municipal de Saúde para atender mulheres e famílias vítimas de violência e em situação de vulnerabilidade. O serviço oferece acolhimento por demanda espontânea ou encaminhamentos da rede pública, com atendimentos realizados mediante agendamento por telefone ou e-mail. A unidade conta com equipe multidisciplinar formada por médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, focada na proteção, na ressignificação do trauma e na reconstrução de vínculos. Além do suporte psicossocial, realiza avaliações de risco, orientações sobre direitos, testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis e a profilaxia pós-exposição sexual, a PEP. A atuação integrada com a rede municipal fortalece a vigilância e a resposta aos casos, com o objetivo de interromper ciclos de violência e manter a capital sem registros de feminicídio.