Ditadura da Alegria

A busca pela felicidade que destrói

Uma reflexão crítica sobre a cobrança de felicidade, redes sociais e como sentir a vida sem negar a tristeza

Multidão desfocada ao fundo e uma pessoa em primeiro plano

O mundo contemporâneo vive uma “ditadura da alegria” ao mesmo tempo que coloca uma série de obstáculos para que você possa encontrar a tão sonhada felicidade. Trata-se de uma suposta plenitude que você pode contemplar e usufruir um dia, desde que siga certos passos. Mas, são tantas exigências para tal que, no final das contas, no lugar da felicidade você encontra apenas a ansiedade. E precisamos considerar que existe ainda um agravante: essa felicidade só depende de você!

Esse imperativo “seja feliz” pode ser causa de frustrações e agravar alguns quadros clínicos como é o caso da depressão. Os anúncios colocam a felicidade embalada em ampolas, comprimidos, objetos, nos ganhos financeiros e bens materiais. Porém, não basta consumir essas coisas, a felicidade também depende de seu corpo, seja no seu peso, seu cabelo, sua cintura ou mesmo seus lábios. Nesse caso, você consome e é consumido ao mesmo tempo, precisando comprar produtos bem como oferecer um pedaço de si para “ser feliz”.

Essa “felicidade’ te deforma! Sendo que um dos maiores efeitos que encontramos no laço social hoje são as incansáveis comparações com o outro e o medo de ficar de fora. E nestas circunstâncias surgiu uma categoria específica nas redes sociais chamada de “influenciadores”. A própria palavra denuncia o que se espera diante de um influente, ou seja, que tudo possa fluir para dentro de seus parâmetros.

Aproveitando que citamos as redes sociais, vale destacar que elas não produzem rede pois elas estão tornando as coisas cada vez mais unidirecionadas com o algoritmo. Não se trata mais de produzir rede, mas de criar uma única direção e um único vínculo baseado na repetição de um conteúdo que possa reter sua atenção. E não são sociais pois não produzem sociabilidade, mas apenas uma série de conteúdos com fins lucrativos e individuais.

Então, qual seria o lugar da felicidade no mundo contemporâneo?

A felicidade é justamente o que resiste a todo esse movimento de busca infinita e eternamente insatisfeita. Saber ser feliz está muito mais associado a saber viver e sentir as tristezas sem negar suas infelicidades e entender que a vida é esse movimento que oscila. É impossível ser alegre sem uma dose de tristeza, bem como você é capaz de sentir as duas coisas ao mesmo tempo em alguns momentos.

A felicidade também não é permanente e você sequer vai encontrá-la em algum lugar, pois ela é o resultado de um bom encontro, que aos olhos do outro pode parecer algo supérfluo e sem valor, mas que para você é uma verdadeira satisfação. Portanto, a felicidade é uma experiência sensível que pode acontecer quando menos se espera. Ela existe para quem está disponível a sentir a vida acontecendo, para quem deseja a repetição de um instante que faz tudo valer a pena.