Mani pulite: “mãos limpas”, em italiano, língua dos antepassados da nova prefeita de Vitória, Cris Samorini (PP), e do seu antecessor no cargo, Lorenzo Pazolini (Republicanos). Também é o nome da operação contra políticos corruptos que marcou época na Itália nos anos 1990 e que inspirou a Operação Lava Jato no Brasil, vinte anos depois. Foi com essa expressão, “mãos limpas”, que Pazolini se despediu do cargo, ao encerrar seu discurso da tribuna da Câmara de Vitória, durante a sessão solene de posse de Cris na noite de segunda-feira (6):
“Saio da Prefeitura de Vitória com as duas mãos limpas! Da forma como entrei, eu estou saindo!”, declarou Pazolini, abrindo as duas mãos espalmadas e mantendo-as assim por alguns segundos (naquele gesto político clássico), sob gritos de “nosso governador” vindos de apoiadores nas galerias da Câmara.
Pazolini, como se vê, usou o momento para calibrar aquele que deverá ser o seu discurso como pré-candidato a governador do Espírito Santo, enfocando não só a imagem de “renovação política” e “bom gestor”, como também a de “incorruptibilidade”.
Mas esse não foi o único momento “calibragem do discurso”. Em duas passagens marcantes do pronunciamento, evidentemente sem citá-lo pelo nome, Pazolini deu duas alfinetadas no agora ex-governador Renato Casagrande (PSB).
Desde o biênio em que Pazolini foi deputado estadual (2019 e 2020), ele e Casagrande jamais foram aliados. Agora, o ex-governador é pré-candidato a senador da República. É, também, o principal aliado daquele que, potencialmente, é o maior adversário eleitoral do ex-prefeito de Vitória: o governador Ricardo Ferraço (MDB), sucessor de Casagrande no cargo desde semana passada e pré-candidato à reeleição em outubro.
Em primeiro lugar, indiretamente, Pazolini imputou a Casagrande uma suposta “falta de sensibilidade”. A imputação indireta foi feita quando o ex-prefeito ressaltava a tão aguardada reinauguração do Restaurante Popular de Vitória, no bairro Ilha de Santa Maria, como uma das realizações de seu governo na área social.
“E aqui fica uma indagação: será que só tem pessoas com insegurança alimentar e nutricional em Vitória? Será que só tem pessoas precisando do auxílio do poder público para ter uma alimentação digna em Vitória? Com certeza absoluta, não! Isso é triste, mas é um diagnóstico. Mas por que só Vitória tem um restaurante popular? Será que quem está acima dos prefeitos não deveria ter estendido a mão aos outros 77 municípios para levar um restaurante popular para todos os municípios do Espírito Santo? Ou será que faltou sensibilidade a quem podia fazer e não fez?”
A segunda alfinetada veio quando Pazolini – de novo, sem citar ninguém nominalmente – atribuiu a Casagrande corresponsabilidade pelo descontrole fiscal do governo Vitor Buaiz, eleito pelo PT em 1994 e governador do Espírito Santo de 1995 a 1998, tendo Casagrande como vice-governador:
“O gestor não pode errar nisso. O gestor não pode tergiversar com um passado nebuloso. Nós já tivemos aí governos que entraram concedendo 25%, 30% de aumento [para o funcionalismo público estadual]. E o Espírito Santo já viu essa história. Já viu essa história e como terminou. Mas não só viu a história. Viu a chapa que estava lá. Tinha um governador e um vice. Essa história tem que ser lembrada e vista pelos capixabas. Essa página nebulosa nós não queremos viver novamente”.
DISCURSOS DOS VEREADORES
Ana Paula Rocha: “Que os sonhos das meninas não se despedacem”
Cada vereador teve rigorosamente um minuto para discursar, e todos quiseram aproveitar o momento. Muitos destacaram o “momento histórico”, pelo ineditismo do fato de Vitória passar a ser governada por uma mulher.
Uma delas foi Ana Paula Rocha, vereadora do PSol, que faz oposição à atual gestão municipal. Ela lembrou que tal ineditismo nos diz muito sobre as “estruturas de poder que são racistas e que são machistas”. Nesse momento, algumas vaias ameaçaram surgir, mas foram prontamente abafadas.
“Que Vitória seja uma cidade que acolha o sonho de meninas e de mulheres para que nossos sonhos não se despedacem”, discursou a vereadora, poeticamente. “Temos nossas diferenças, mas de mim você terá respeito”, disse ela à prefeita entrante.
Karla Coser: “Prefeitura não é empresa”
Após terem se cumprimentado de maneira muito elegante à chegada de Cris (veja nota abaixo), a também opositora Karla Coser (PT) protagonizou uma pequena saia justa, mas sem perder o respeito, fazendo uma fala mais enfática de cobrança à nova prefeita:
“‘Prefeita’. Esperamos 474 anos para dizer esta palavra. A política é um espaço hostil para todos, mas para nós mulheres é ainda mais. Desejo a você sabedoria e humildade. E que se lembre que a prefeitura não é uma empresa. Os números são importantes. Mas, mais importantes que os números, são as pessoas.”
Oposição pelo PSB
Dois vereadores do PSB, ambos oposicionistas, também fizeram críticas à gestão do ex-prefeito Pazolini. Pedro Trés o fez de maneira diretíssima: “Vitória vem ficando para trás em alguns aspectos importantes. Há algum tempo, não temos mais o maior PIB do Espírito Santo”.
Já Bruno Malias criticou Pazolini indiretamente, ao exclamar para Cris: “Esta Câmara pede diálogo!”
Dalto Neves (SD): fala ambígua
Pré-candidato à presidência da Câmara no biênio 2027-2028, o vereador Dalto Neves (SD) envolveu-se recentemente em uma polêmica com Pazolini, que tentou (sem sucesso) adiar para dezembro a eleição interna da Mesa Diretora, marcada para agosto.
O vereador fez uma fala extremamente ambígua:
“Fala-se muito em ‘virar a página’. Eu peço à atual prefeita para ‘virar a página’… Mas essa ‘página’ é mal interpretada. Peço à prefeita Cris que dê continuidade ao trabalho do prefeito Pazolini pela cidade de Vitória!”
Alguém aí entendeu?
Aliados: gratidão e “lançamento ao Anchieta”
Por outro lado, muitos vereadores da base fizeram falas de agradecimento a Pazolini. O presidente da Casa, Anderson Goggi (Republicanos), foi além: nas entrelinhas, abordou a pré-candidatura dele a governador.
“Você transformou a realidade da cidade de Vitória! E a sua posição em transformar a cidade de Vitória te credenciou a um voo maior!”
Colega na turma de Direito de Pazolini na FDV, Davi Esmael disse haver “uma esperança de continuidade” depositada em Cris. “Lorenzo, obrigado! Você combateu o bom combate e devolveu a todos os capixabas o direito de acreditar na boa política”.
Outros também agradeceram, como João Flávio (MDB), Mara Maroca (PP) e o líder de Pazolini na Câmara, Leonardo Monjardim (Novo). Este também deu conotação eleitoral à sua fala:
“Que você consiga fazer pelo estado do Espírito Santo o que você fez por Vitória!”
CURIOSIDADES
Pai e filho
O pai e o filho de Cris acompanharam a nova prefeita e ficaram em lugar de honra, atrás dela, na mesa de autoridades. São, respectivamente, Tulio Samorini e Rodrigo Samorini. O filho de Cris tem 17 anos e, segundo ela, 1,95 metro de altura. Dá para notar o contraste, né?

Irmão e sobrinho
Representando a família, quem também compareceu foi o irmão de Cris, Romulo Samorini, com o filho dele (sobrinho de Cris), também chamado Tulio Samorini. Não tiveram “moleza”, não… Passaram a cerimônia inteira de pé, nas galerias, escorados na parede (bem ao lado do colunista). Muito simpáticos e solícitos em contar a história da família.
Tulio, Romulo, Tulio, Romulo…
Aliás, no diálogo com o irmão de Cris, descobrimos que criatividade na escolha dos nomes não é bem o forte dos Samorini. O bisavô da prefeita, pintor italiano radicado no Brasil? Tullio! O avô? Romulo! O pai (presente)? Tulio! O irmão? Romulo! O filho do irmão? Tulio!
Basicamente, até agora, são cinco gerações de alternância dos mesmos dois nomes masculinos.
Não perguntamos ao sobrinho de Cris se eventual filho dele se chamará Romulo, a fim de perpetuar a alternância… Mas, a se manter a tradição dos Samorini…
Aliados político-eleitorais
Na cerimônia de posse, muitos aliados políticos de Cris e Pazolini se fizeram presentes. Entre eles:
. Erick Musso – presidente estadual do Republicanos
. Evair de Melo – deputado federal, recém-filiado ao Republicanos
. Manato – ex-deputado federal, filiado ao Republicanos em março
. Soraya Manato – ex-deputada federal, também filiada ao partido de Pazolini em março
. Pablo Muribeca – deputado estadual da Serra, filiado ao Republicanos
. Alcântaro Filho – deputado estadual de Aracruz, filiado ao Republicanos
. Guerino Zanon – ex-prefeito de Linhares, filiado ao PSD (partido aliado ao Republicanos)
Dedicatória especial a Evair
Na fase das saudações, no começo de seu discurso, Cris fez uma menção especial a Evair, de quem é muito próxima politicamente, desde os tempos de presidência da Findes. “Você é praticamente da minha família.”
Fiel escudeiro de Hartung se fez presente
O ex-governador Paulo Hartung (PSD), que já declarou apoio a Pazolini para governador, não compareceu… Mas quem o fez foi um aliado histórico do ex-governador: Neivaldo Bragato!
Bragato é considerado fiel escudeiro de Hartung desde os tempos de movimento estudantil na Ufes, em meados dos anos 1970. Sentado dentro do plenário, ele também foi incluído nas saudações de Cris.
Hartung e Bragato são antigos amigos do pai da nova prefeita, Tulio Samorini.
Rol de autoridades
Já no rol de autoridades, compareceram:
. Erica Neves (OAB-ES)
. Paulo Baraona (Findes)
. Sérgio Aboudib e Domingos Taufner (TCES)
. Janete Simões (TJES)
. Marcelo Lemos, representando o MPES
. Janine Fiorot (MP do Trabalho no ES)
. Wendel Armani (Capitania dos Portos do ES)
. Rodrigo Feitosa, representando a Defensoria Pública do ES
CENAS POLÍTICAS
Corpo a corpo nas galerias
Antes do início da sessão, alguns vereadores, como Armandinho Fontoura (PL) e Aylton Dadalto (Republicanos), fizeram questão de realizar um “corpo a corpo” nas galerias lotadas da Câmara. Cumprimentaram um por um cada presente, incluindo os profissionais de imprensa.
Gentileza entre mulheres
Ao chegar ao plenário e cumprimentar a opositora Karla Coser, Cris Samorini perguntou à petista se o neném dela, nascido no ano passado, está bem de saúde. “Tá bem! Tá bem”, respondeu Karla.
Que pena que esse tipo de “cavalheirismo” muitas vezes não se veja entre os homens…
“Família Neves? Presente!!!”
Anderson Goggi: Agora, para fazer uso da fala, o vereador Camillo Neves. E, na sequência, o vereador Dalto Neves. É a família Neves presente!
Camillo Neves (já ocupando a tribuna): E ainda tem a Erica Neves!
Passa a régua.