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Dia do Fico: por que Arnaldinho desistiu de ser candidato ao governo

Uma análise mais aprofundada sobre as razões de bastidores que pesaram na decisão do prefeito de Vila Velha de permanecer no cargo

Escrito por Vitor Vogas

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Sem prejuízo das razões oficiais (família, compromisso com a cidade), certamente muito genuínas, propomos aqui uma análise mais aprofundada sobre outras questões, de bastidores, que pesaram na decisão de Arnaldinho Borgo (PSDB), anunciada nesta quarta-feira (25), de permanecer no cargo e completar seu atual mandato como prefeito de Vila Velha – abrindo mão, assim, de concorrer este ano ao cargo de governador ou a qualquer outro mandato eletivo.

Antes de tudo, lembremos: se realmente renunciasse ao mandato de prefeito, Arnaldinho escolheria definitivamente seu lado na disputa eleitoral… e não seria o lado do governo Casagrande. Se o fizesse, teria de ir para a disputa sozinho, “por sua conta e risco”, ou na aliança eleitoral esboçada com Lorenzo Pazolini (Republicanos) e anunciada com estrondo durante o Carnaval de Vitória. Uma aliança que agora também soa bastante incerta.

Ao desistir da candidatura, Arnaldinho abandona a disputa eleitoral. E, automaticamente, assume a condição de cabo eleitoral mais cobiçado pelos postulantes que sobram de pé no páreo. Pode até ser o fiel da balança numa possível disputa equilibrada entre Ricardo Ferraço (MDB) e Pazolini.

Falando em tese, como prefeito de Vila Velha em pleno processo eleitoral, Arnaldinho poderá até recompor com o grupo político de Casagrande e reatar um bom relacionamento com o Governo do Estado – o qual, a partir de 2 de abril, passará a ser o governo de Ricardo Ferraço.

Segundo a nossa apuração, pontes de diálogo já foram reconstruídas entre Arnaldinho e emissários do Palácio Anchieta, podendo culminar em um novo tipo de acordo. Mas tampouco pode ser descartado eventual confirmação de uma aliança com Pazolini.

Nas últimas três semanas, uma série de sinais – devidamente expostos aqui – já reforçavam a percepção de “pisada no freio” de Arnaldinho para refletir melhor.

Em primeiro lugar, o prefeito de Vila Velha deixou de ser visto ao lado de Pazolini, após aquele ímpeto de fevereiro, mês em que os dois prefeitos apareceram juntos dia sim, dia não – incluindo o desfile no Sambão, missa no Convento da Penha, corpo a corpo com eleitores na icônica Feira de Aribiri, trio elétrico em Castelo, visita ao prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos (PSD), entre inúmeros outros atos, gestos e posts.

No Instagram do prefeito de Vila Velha, o último post em collab com o de Vitória data do dia 2 de março.

Arnaldinho ao lado de Pazolini; do outro lado, Casagrande (06/02/2026)
Arnaldinho ao lado de Pazolini; do outro lado, Casagrande (06/02/2026)

Em segundo lugar, na manhã do último dia 16, Arnaldinho reuniu todo o seu secretariado, cobrou empenho da equipe e anunciou uma série de novas obras e projetos para a cidade. Não se trata de entregas. São frutos para colher nos próximos dois anos. Postura encarada por muitos como a de quem pretendia ficar.

Em terceiro lugar, um dos grandes fatos políticos dos últimos dias no Estado foi a presença de Arnaldinho, ao lado de Casagrande e de Ricardo, na manhã do dia 14 (um sábado), no evento do governo para a inauguração da estação de tratamento de esgoto da Cesan em Terra Vermelha.

Para além da presença do prefeito – no reencontro público dele com Casagrande desde seu “desfile surpresa” com Pazolini no Sambão –, o que mais chamou a atenção foi o discurso de Arnaldinho, marcado por reconhecimento e um agradecimento explícito ao governador.

Em gesto interpretado por muitos como de reabertura da porta, Arnaldinho registrou, literalmente, que seguiria dialogando “com todos” (o que inclui, por óbvio, o grupo de Casagrande).

A cidade de Vila Velha é assim: a gente conversa com todos, continuaremos conversando, porque não existe projeto pessoal passar na frente do interesse coletivo. E aqui no dia de hoje, governador, eu quero agradecer por tudo o que o senhor fez e investiu na cidade de Vila Velha.”

O que também pesou para que Arnaldinho voltasse atrás?

Cumpre lembrar que, se renunciasse, Arnaldinho ficaria “na planície”, sem cargo nem mandato eletivo, sem a caneta na mão nem controle sobre a máquina municipal. Ficaria, enfim, sem poder.

Nos próximos meses – os mais tensos possíveis, na iminência do período eleitoral –, Arnaldinho poderia ficar muito mais vulnerável, sem o escudo político inerente ao cargo de prefeito de uma cidade da importância de Vila Velha.

Serão meses muito delicados e de profunda exposição. Meses de guerra eleitoral declarada entre forças adversárias. Você sabe como começa, mas não sabe como termina. No “vale tudo eleitoral”, golpes abaixo da linha da cintura podem aparecer por todos os lados.

Além disso, nas últimas “seis semanas e meia de desamor” (inauguradas em 6 de fevereiro, com o bloco surpresa no Sambão), Arnaldinho recebeu do Palácio Anchieta uma “amostra” do que é ser um “prefeito de oposição” (ou aliado a um grupo de oposição). Para não nos estendermos neste ponto, o “prestígio constante de outrora” deu lugar a um “gelo” sem precedentes.

No dia 6 de março, numa entrega da Prefeitura de Vila Velha no bairro Jardim Colorado, o prefeito, por assim dizer, “acusou o golpe”: em discurso na solenidade, queixou-se publicamente de uma alegada queda expressiva nos investimentos voluntários do Governo do Estado no município (algo que o governo nega). A declaração foi confirmada por três fontes da coluna. Foi a única vez em que ele tocou no assunto de maneira pública.

Já no evento em Terra Vermelha, no último dia 14, Arnaldinho foi tratado com frieza sem precedentes pelo governador e por representantes do governo. Sem abraços, sorrisos nem tapinhas nas costas. Casagrande e Arnaldinho, a dupla que até o ano passado literalmente corria e até “surfava” lado a lado, não foi além de um protocolar aperto de mãos.

Em terceiro lugar, a Câmara Municipal de Vila Velha, hoje, não está plenamente pacificada. Há focos de tensão relacionados à tramitação do novo Plano Diretor Municipal (PDM) e, notadamente, à eleição da próxima Mesa Diretora, marcada para o início de junho.

Se Arnaldinho renunciasse, o vice-prefeito Cael Linhalis (PSDB) assumiria o comando da prefeitura até 2028. Por conseguinte, com o cargo de vice-prefeito vago, o primeiro na linha sucessória passaria a ser o presidente da Câmara de Vereadores. E, com Arnaldinho sem mandato nem poder decisório, a definição do chefe da Câmara no biênio 2027-2028, em junho, poderia até fugir do controle do seu grupo político.

O fator Victor Linhalis e a chapa do PSDB-ES para a Câmara dos Deputados

Por último e mais importante: se insistisse em renunciar para ser candidato ao governo, Arnaldinho poderia se jogar de cabeça em um risco muito grande: o de ficar sem nada em 2027 e 2028, até a próxima eleição municipal.

Em sua aliança (agora incerta) com Pazolini, só caberia um candidato a governador. Desde o início, em 6 de fevereiro, pouquíssima gente acreditava que Pazolini cederia a primazia a Arnaldinho, pois seu partido (Republicanos) é mais forte que o PSDB, além do fato de que prefeito de Vitória pontua melhor que o vizinho em sondagens de institutos que já testaram o cenário para governador do Espírito Santo.

Por outro lado, se Arnaldinho fosse para o tudo ou nada – concorrendo com Ricardo e com Pazolini ao mesmo tempo –, o PSDB dificilmente teria condições (ou vontade) de dar sustentação a esse voo solo.

Em dezembro, o prefeito de Vila Velha conseguiu um partido para chamar de seu no Estado. Tecnicamente, teria legenda para se candidatar a governador. Mas poderia lhe faltar o mais importante: recursos, tempo de propaganda, estrutura para suportar um projeto de tal magnitude, contra a força da máquina do Estado e a da Prefeitura de Vitória.

Um tucano só não faz verão. Hoje pequeno no Congresso, o PSDB precisa escolher suas prioridades pelo país. E a prioridade máxima da sigla nas eleições 2026, como não esconde Aécio Neves, é voltar a eleger Brasil afora uma boa bancada de deputados federais.

O partido, que chegou a menos de 15, quer voltar a ter mais de 30 representantes na Câmara dos Deputados. No Espírito Santo, Aécio quer fazer um federal.

Para isso, Arnaldinho precisa montar uma chapa em condições de reeleger Victor Linhalis, já filiado ao PSDB. Mas, sem a ajuda do Palácio Anchieta, está muito difícil. E poderia ficar ainda mais se, em vez de se concentrar nas eleições parlamentares no Espírito Santo, a direção nacional decidisse gastar recursos com uma onerosa campanha para governador sem grandes partidos aliados.

Na semana passada, Arnaldinho e Victor Linhalis reuniram-se com Aécio Neves, em Brasília. Segundo congressistas capixabas que os viram depois do encontro, a conversa com o tucano-mor não foi das mais animadoras.

Como o próprio Arnaldinho registra em sua nota oficial, ele agora seguirá “empenhado, como presidente do PSDB capixaba, na construção de boas chapas para deputado estadual e federal”.

O prefeito precisa cumprir a sua parte no acordo com Aécio Neves, quando o presidente nacional do PSDB deu a ele a direção estadual: entregar uma chapa competitiva de deputados federais no Espírito Santo.

No entanto, na atual formatação, a chapa do PSDB-ES corre o risco de nem atingir o quociente eleitoral. Até a reeleição de Victor Linhalis, o “deputado federal do Arnaldinho”, fica seriamente ameaçada. E a reeleição de Victor é também prioritária para o prefeito. Questão de honra para ele.

Não só porque Victor é uma das apostas do grupo liderado por Arnaldinho na eleição a prefeito de Vila Velha em 2028. Mas porque não conseguir reeleger seu “próprio deputado federal” passaria, ao mercado político, uma ideia de enfraquecimento…

Da direita para a esquerda: Neucimar, Victor Linhalis, Arnaldinho, Luiz Paulo e Victor e Cael Linhalis
No sentido da leitura: Neucimar, Victor Linhalis, Arnaldinho, Luiz Paulo e Cael Linhalis

Opinião do colunista: o prejuízo político

Corredor de rua inveterado, Arnaldinho Borgo abandona no meio da prova, como um “coelho”, a maratona eleitoral em direção ao Palácio Anchieta. Até o momento da desistência, suas passadas foram erráticas.

O prefeito se esforçou como poucos para viabilizar a candidatura a governador. Foi para um lado, foi para o outro, mudou de lado, ensaia possível retorno…

No caminho, colecionou novos desafetos e adversários políticos. Chegou ao comando do PSDB no Estado de um modo que deixou arestas. Num intervalo de poucos meses, posou como grande aliado de grupos políticos rivais na geopolítica capixaba. Pôs em risco a própria credibilidade junto a parte do mercado político, notadamente, por óbvio, junto ao Palácio Anchieta.

Arnaldinho é grande em muitos aspectos. Grande no carisma, na popularidade, na já testada e comprovada capacidade de realização, na expectativa de um grande futuro pela frente na política do Espírito Santo.

Mas, na humilíssima opinião deste colunista, cabe um balanço e uma boa reflexão sobre o que foram estes últimos 12 meses encadeando movimentos tão confusos e declarações, não raro, contraditórias.

Arnaldinho, repita-se, é muito grande. Mas no saldo geral, em termos de força política, sai dessa corrida um pouco menor do que entrou.

Primeira foto: julho de 2025; segunda foto: fevereiro de 2026
Primeira foto: julho de 2025; segunda foto: fevereiro de 2026

 

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