Ser ou não ser… prefeito? Ou melhor: seguir ou não seguir sendo-o? Nos próximos dias, Arnaldinho Borgo (PSDB) tomará a decisão mais importante de sua trajetória política: renunciar ou não ao segundo mandato de prefeito de Vila Velha, para tentar ser candidato a governador? O limite do prazo é o dia 4 de abril. E o que parecia certo e precificado pelo mercado político capixaba – a renúncia para disputar o governo – agora realmente se converteu num dilema.
Arnaldinho vive dias de profunda reflexão e reavaliação de cenários, com a família e os principais aliados.
Mais que qualquer outro potencial concorrente, o prefeito vinha demonstrando uma obstinação sem par desde que se lançou nessa corrida, em junho de 2025. Sempre se mostrou inabalável em sua determinação de concorrer.
Nos últimos dias, porém, a obstinação em disputar o governo deu lugar a hesitação, temperança e análise de pesquisas. É fato que o prefeito está pesando em sua balança uma série de fatores. E já não será surpresa se a renúncia, antecipada por ele e tão aguardada, vier a se transformar em um histórico “Dia do Fico”. “Hoje está meio a meio”, diz à coluna, sob reserva, um dos mais próximos interlocutores de Arnaldinho.
Lembrando: se realmente renunciar ao mandato de prefeito, Arnaldinho escolherá definitivamente seu lado na disputa eleitoral… e não será o lado do governo Casagrande. Se o fizer, ele terá de ir para a disputa sozinho, “por sua conta e risco”, ou na aliança eleitoral desenhada com Lorenzo Pazolini (Republicanos) e anunciada com estrondo durante o Carnaval de Vitória.
Já se Arnaldinho recuar, desistindo de renunciar e ficando no cargo para completar seu governo em Vila Velha, ele abandona a disputa eleitoral (não será candidato a nada este ano). Automaticamente, assume a condição de cabo eleitoral mais cobiçado pelos postulantes no páreo. Pode até ser o fiel da balança entre Ricardo Ferraço (MDB) e Pazolini.
Falando em tese, como prefeito de Vila Velha em pleno processo eleitoral, Arnaldinho poderá até recompor com o grupo político de Casagrande e reatar um bom relacionamento com o Governo do Estado – que, a partir de 2 de abril, passará a ser o governo de Ricardo Ferraço.
Nos últimos 15 dias, uma série de sinais reforçam a percepção de “pisada no freio” de Arnaldinho para refletir melhor.
Em primeiro lugar, o prefeito de Vila Velha deixou de ser visto ao lado de Pazolini, após aquele ímpeto de fevereiro, no qual os dois apareceram juntos dia sim, dia não – incluindo o desfile no Sambão, missa no Convento da Penha, corpo a corpo com eleitores na icônica Feira de Aribiri, trio elétrico em Castelo, visita ao prefeito de Colatina, Renzo Vasconcelos (PSD), entre inúmeros outros atos, gestos e posts.
No Insta do prefeito de Vila Velha, o último post com o de Vitória data do dia 2 de março.
Em segundo lugar, na última segunda-feira (16), Arnaldinho reuniu todo o seu secretariado, cobrou empenho da equipe e anunciou uma série de novas obras e projetos para a cidade. Não se trata de entregas. São frutos para colher nos próximos dois anos. Postura encarada por muitos como a de quem pretende ficar.
Em terceiro lugar, o grande fato político dos últimos dias no Estado foi a presença de Arnaldinho, ao lado de Casagrande e de Ricardo, na manhã de sábado (14), no evento do governo para a inauguração da estação de tratamento de esgoto da Cesan em Terra Vermelha.
Para além da presença do prefeito – no reencontro público dele com Casagrande desde seu desfile-surpresa com Pazolini no Sambão –, o que mais chamou a atenção foi o discurso de Arnaldinho, marcado por reconhecimento e um agradecimento explícito ao governador.
Em gesto interpretado por muitos como de reabertura da porta, Arnaldinho registrou, literalmente, que seguirá dialogando “com todos” (o que inclui, por óbvio, o grupo de Casagrande).
A cidade de Vila Velha é assim: a gente conversa com todos, continuaremos conversando, porque não existe projeto pessoal passar na frente do interesse coletivo. E aqui no dia de hoje, governador, eu quero agradecer por tudo o que o senhor fez e investiu na cidade de Vila Velha.”
Em quarto lugar, Arnaldinho tem mesmo mantido contato com líderes políticos influentes que estão firmemente posicionados no palanque governista. Um deles é o deputado federal Josias da Vitória (PP), ninguém menos que o presidente estadual da poderosa Federação União Progressista.
Sob a liderança de Da Vitória, a federação está no projeto que tem Ricardo como candidato a governador em outubro e Casagrande como um dos candidatos a senador. Arnaldinho sempre conversou muito bem com Da Vitória. A convite dele, por pouco não se filiou ao PP no ano passado.
Nesta quarta-feira (18), o prefeito está em Brasília. Tem uma importante reunião marcada para esta tarde com Aécio Neves, o presidente nacional do PSDB. Pelo que a coluna apurou, Da Vitória também quer aproveitar para voltar a dialogar com Arnaldinho.
Um dos principais aliados de Ricardo e Casagrande, o deputado se apresenta como um dos “engenheiros da ponte” para a possível volta de Arnaldinho à base governista.
É mais um forte sinal de que o prefeito está mesmo aberto ao diálogo e que a possibilidade de “retorno” não pode ser de todo descartada – a depender das condições.
O que poderia fazer com que Arnaldinho voltasse atrás?
Antes de tudo, cumpre lembrar que, se renunciar, Arnaldinho ficará “na planície”, sem cargo nem mandato eletivo, sem a caneta na mão nem controle sobre a máquina municipal. Ficará, enfim, sem poder.
Nos próximos meses – os mais tensos possíveis, na iminência do período eleitoral –, ficará muito mais vulnerável, sem o escudo político inerente ao cargo de prefeito de uma cidade da importância de Vila Velha.
Serão meses muito delicados e de profunda exposição. Meses de guerra eleitoral declarada. Você sabe como começa, mas não sabe como termina. No “vale tudo eleitoral”, golpes abaixo da linha da cintura podem aparecer por todos os lados.
Além disso, nos últimos 40 dias, Arnaldinho recebeu do Palácio Anchieta uma “amostra” do que é ser um “prefeito de oposição” (ou aliado a um grupo de oposição). Para não nos estendermos neste ponto, o “prestígio constante de outrora” deu lugar a um “gelo” sem precedentes.
No evento do último sábado, Arnaldinho foi tratado com frieza pelo governador e por representantes do governo. Sem abraços, sorrisos nem tapinhas nas costas. Casagrande e Arnaldinho, a dupla que até o ano passado literalmente corria e até “surfava” lado a lado, não foi além de um aperto de mãos protocolar.
Em terceiro lugar, a Câmara Municipal de Vila Velha não está plenamente pacificada. Há focos de tensão relacionados à tramitação do novo Plano Diretor Municipal (PDM) e, notadamente, à eleição da próxima Mesa Diretora, marcada para o início de junho.
Com Arnaldinho fora do cargo, a definição do chefe da Câmara – primeiro na linha sucessória após Cael Linhalis (PSDB) no biênio 2027-2028 – poderá fugir do controle.
Por último e mais importante, se insistir em renunciar e ser candidato ao governo, Arnaldinho pode estar indo para um risco muito grande: o de ficar sem nada em 2027 e 2028, até a próxima eleição municipal.
Em sua aliança com Pazolini, só cabe um candidato a governador. Pouquíssima gente acredita que Pazolini cederá a primazia a Arnaldinho, pois seu partido (Republicanos) é mais forte que o PSDB e o prefeito de Vitória pontua melhor que o vizinho em sondagens de institutos que já testaram o cenário para governador do Espírito Santo.
Por outro lado, se for para o tudo ou nada – concorrendo com Ricardo e com Pazolini ao mesmo tempo –, o PSDB dificilmente terá condições (ou vontade) de dar sustentação a esse voo solo. Em dezembro, Arnaldinho conseguiu um partido para chamar de seu no Estado. Hoje tem legenda para se candidatar a governador. Mas pode lhe faltar a estrutura para bancar esse projeto.
Um tucano só não faz verão. Hoje pequeno no Congresso, o PSDB precisa escolher suas prioridades pelo país. E a prioridade máxima da sigla nas eleições 2026, como não esconde Aécio Neves, é voltar a eleger Brasil afora uma boa bancada de deputados federais.
O partido, que chegou a menos de 15, quer voltar a ter mais de 30 representantes na Câmara dos Deputados. No Espírito Santo, Aécio quer fazer um federal.
Para isso, Arnaldinho precisa montar uma chapa em condições de reeleger Victor Linhalis, já filiado ao PSDB. Mas, sem a ajuda do Palácio Anchieta, está muito difícil. E pode ficar ainda mais se, em vez de se concentrar nas eleições parlamentares no Espírito Santo, a direção nacional decidir gastar recursos com uma onerosa campanha para governador sem grandes partidos aliados.
Victor Linhalis: “Não existe essa hipótese”
Em que pesem todos os fatores relacionados acima, um dos principais aliados de Arnaldinho, o deputado federal Victor Linhalis, afirma categoricamente: hoje, “não há hipótese” de o prefeito desistir de se candidatar a governador. Confira a minientrevista do deputado:
Arnaldinho está reavaliando ser candidato a governador?
Isso não procede. O processo é outro, focado nas candidaturas de estadual, federal e governador. Arnaldinho segue pré-candidato a governador.
Mas existe alguma chance de ele mudar de ideia e voltar atrás?
A preço de hoje, de maneira alguma. Não vejo nenhum tipo de discussão nesse sentido. A gente nem toca nesse assunto. Só falamos em montagem de chapa proporcional e candidatura a governo. Não tem outra trajetória a não ser essa. Tem muita especulação? Tem. Concordo com você. Mas é especulação de fora. Internamente, não existe essa conversa. Isso nunca foi nem tratado por nós, que estamos ali no dia a dia, pelo menos não comigo. Zero. Não existe essa hipótese.
O senhor não foi convidado pelo deputado Da Vitória para se filiar ao PP e ser candidato à reeleição na chapa da Federação União Progressista?
Fui convidado por todos: pelo Amaro Neto, pelo Marcelo Santos, pelo Da Vitória [membros da citada federação]…
Mas o senhor cogita sair do PSDB e mudar de partido até o dia 4 de abril?
Eu creio que a gente montará chapa. Não tem por que a gente fazer isso, por dois motivos: primeiro, porque a gente tem um grupo; segundo, porque a gente tem convicção de que vai conseguir montar a chapa do PSDB para a Câmara Federal.
O senhor acredita que essa chapa do PSDB conseguirá atingir o quociente eleitoral para eleger um federal no Espírito Santo?
Hoje, não. Mas, com o que estamos construindo, acho que sim.
E a conversa do senhor e do Arnaldinho com o Aécio? Qual é a pauta?
Serão tratados esses assuntos pertinentes ao processo eleitoral: montagem de chapa para deputados e a pré-candidatura de Arnaldinho a governador.
Vocês vão tratar de recursos para financiamento de campanhas no Estado?
Sim, é natural. Vamos tratar dessa questão também.
