Marcos Pimentel

Perícia sem examinar: a verdade sobre as negativas do INSS que Estão deixando trabalhadores sem renda

Dignidade nunca deveria depender de um carimbo apressado

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Perícia média é alvo de críticas no INSS. Foto: Divulgação

Recentemente, uma reportagem exibida pelo Jornal Nacional trouxe à tona uma situação alarmante: peritos do Instituto Nacional do Seguro Social estariam decidindo o destino de trabalhadores sem sequer examiná-los adequadamente.

Para quem nunca precisou de um benefício previdenciário, isso pode parecer apenas um problema administrativo. Mas para quem depende daquele pagamento para comprar comida, pagar aluguel ou continuar um tratamento médico, essa prática representa desespero, humilhação e abandono.

Neste artigo, vou explicar o que está acontecendo, por que isso é grave, o que diz a lei e o que você pode fazer se foi vítima de uma perícia injusta.

O que a reportagem revelou

A matéria mostrou relatos de segurados que compareceram à perícia médica e saíram de lá com o benefício negado após atendimentos extremamente rápidos, sem exame físico e, em alguns casos, com análise superficial dos documentos apresentados.

A perícia médica do INSS deveria cumprir uma função técnica: avaliar, com base clínica, se o trabalhador está temporariamente ou permanentemente incapaz para o trabalho.

Mas o que muitos segurados relatam é algo muito diferente:

  • Atendimento de poucos minutos
  • Falta de exame físico
  • Perguntas genéricas
  • Decisões padronizadas
  • Negativas sem fundamentação clara.

Quando a avaliação deixa de ser médica e passa a ser apenas burocrática, o sistema deixa de proteger e passa a punir quem mais precisa.

A história de Dona Marta: uma vida inteira de contribuição ignorada

Dona Marta trabalhou por 28 anos como auxiliar de limpeza em uma escola pública. Acordava às 4h30 da manhã, pegava dois ônibus e passava o dia inteiro em pé. Nunca reclamou. Sempre contribuiu com o INSS, mês após mês.

Aos 54 anos, começou a sentir dores intensas nos joelhos e na coluna. O diagnóstico veio como um golpe: artrose avançada e desgaste severo das articulações. O médico foi direto:

“Se a senhora continuar trabalhando nessas condições, pode piorar de forma irreversível.”

Ela reuniu exames, laudos detalhados, receitas, relatórios ortopédicos. Foi à perícia com esperança — afinal, havia contribuído quase três décadas.

Entrou na sala, sentou-se diante do perito. Ele mal levantou os olhos. Fez duas perguntas rápidas. Não pediu que ela se levantasse. Não analisou seus movimentos. Não examinou seus joelhos inchados.

Em menos de dez minutos, a decisão estava tomada.

Benefício indeferido.

A justificativa? “Ausência de incapacidade laborativa.”

Dona Marta saiu chorando. Sem salário. Sem benefício. Com dor. Com contas acumulando.

Essa não é uma história isolada. É o retrato de um sistema que vem se tornando cada vez mais distante da realidade do trabalhador.

A perícia médica precisa ser séria — e a lei exige isso

A perícia não é um favor do Estado. É uma obrigação legal.

O sistema previdenciário existe para garantir proteção social, princípio assegurado pela própria Constituição Federal de 1988, que estabelece a seguridade social como um direito fundamental.

Para que o benefício por incapacidade seja negado ou concedido, é necessária avaliação técnica adequada. Isso significa:

  • Análise detalhada dos exames
  • Consideração da profissão exercida
  • Avaliação clínica compatível
  • Fundamentação clara da decisão

Quando isso não acontece, estamos diante de um procedimento falho — e possivelmente ilegal.

O problema estrutural: metas, economia e cortes

É impossível ignorar um ponto sensível: o governo frequentemente anuncia medidas para reduzir gastos com benefícios por incapacidade.

Não se trata de dizer que todo indeferimento é injusto. Há casos legítimos de negativa. O problema é quando o sistema cria barreiras generalizadas e trata o segurado como suspeito por padrão.

Quando a lógica passa a ser “cortar despesas” em vez de “proteger direitos”, o resultado é previsível: negativas em massa e sofrimento social.

A Previdência não é um programa assistencial opcional. É um sistema contributivo. O trabalhador paga durante anos para ter cobertura quando precisar.

Negar esse direito com base em avaliação superficial não é economia — é desrespeito.

Por que isso é tão grave?

A negativa injusta gera consequências devastadoras:

  1. Endividamento imediato
    Sem salário e sem benefício, o trabalhador recorre a empréstimos, cartões de crédito e ajuda de terceiros.
  2. Interrupção de tratamentos médicos
    Muitos dependem do benefício para comprar medicamentos ou custear consultas.
  3. Abalo psicológico
    A sensação de descrédito e abandono agrava quadros de depressão e ansiedade.
  4. Retorno forçado ao trabalho doente
    Alguns voltam às atividades mesmo incapazes, piorando a própria condição.

O impacto vai além da esfera individual. Afeta famílias inteiras.

“Mas o INSS pode decidir sem examinar?”

Tecnicamente, a perícia é um ato médico-administrativo. Isso exige análise profissional adequada.

Uma decisão tomada sem exame físico quando ele é necessário pode ser questionada judicialmente.

Os tribunais têm reconhecido, em diversos casos, que perícias superficiais ou contraditórias podem ser anuladas, determinando nova avaliação ou até a concessão direta do benefício.

Ou seja: a palavra do perito não é absoluta.

O que fazer se seu benefício foi negado injustamente

Se você passou por situação semelhante à de Dona Marta, não se desespere. Há caminhos possíveis.

  1. Leia atentamente o motivo da negativa
    Verifique qual foi a fundamentação apresentada.
  2. Reúna documentação médica detalhada
    Peça ao seu médico que descreva:
    • Diagnóstico com CID
    • Limitações funcionais
    • Relação da doença com sua atividade profissional
    • Tempo estimado de afastamento
  3. Considere entrar com recurso administrativo
    O próprio INSS permite recurso dentro do prazo legal.
  4. Avalie a via judicial
    Quando há indícios de avaliação inadequada, a Justiça pode determinar nova perícia, desta vez realizada por perito judicial imparcial.

Em muitos casos, o Judiciário tem sido o único caminho para restaurar a dignidade do segurado.

A importância de informação e orientação especializada

Muitos trabalhadores aceitam a negativa por acreditarem que “se o INSS disse não, acabou”.

Não é verdade.

A negativa administrativa é apenas uma etapa. Direitos previdenciários não se encerram com um clique no sistema. Informação é poder. Orientação adequada evita prejuízos maiores.

Uma reflexão necessária

Não se trata de atacar servidores individualmente. Existem peritos sérios e comprometidos.

Mas quando o sistema falha de forma recorrente, precisamos ter coragem de apontar o problema.

O trabalhador brasileiro não pode ser tratado como número. Não pode ser visto como custo. Não pode ser obrigado a provar, repetidamente, que está doente enquanto sofre física e emocionalmente.

A Previdência Social foi criada para proteger — não para desconfiar automaticamente de quem contribuiu por décadas.

Conclusão: dignidade não é favor, é direito

A reportagem exibida pelo Jornal Nacional escancarou algo que advogados previdenciaristas já presenciam diariamente: decisões apressadas, negativas questionáveis e trabalhadores desamparados.

Se você está passando por isso, saiba que não está sozinho.

O benefício por incapacidade não é privilégio. É resultado de contribuição. É direito garantido por lei. É instrumento de proteção social.

Quando a perícia deixa de cumprir seu papel técnico, o caminho é buscar revisão, questionar e, se necessário, recorrer ao Judiciário.

Dona Marta ainda luta pelo benefício. E milhares de outros segurados também.

A diferença entre desistir e lutar pode significar estabilidade financeira, tratamento médico adequado e dignidade preservada.

E dignidade nunca deveria depender de um carimbo apressado.


Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Sim Notícias.