A dificuldade para pagar contas, o acúmulo de dívidas e a incerteza sobre o futuro financeiro têm provocado impactos diretos na saúde mental de milhares de brasileiros. Em janeiro, mês dedicado à campanha Janeiro Branco, o tema ganha força ao expor uma relação cada vez mais evidente: quando o dinheiro sai do controle, o emocional costuma ser o primeiro a sentir.
Ansiedade, insônia, irritabilidade e sensação constante de culpa aparecem com frequência em pessoas que enfrentam problemas financeiros. O efeito não se limita ao orçamento doméstico e acaba atingindo relações familiares, desempenho no trabalho e a qualidade de vida como um todo.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde mental é um estado de bem-estar que permite lidar com o estresse do cotidiano, reconhecer habilidades, trabalhar de forma produtiva e contribuir com a sociedade. O conceito reforça que cuidar da mente não significa apenas tratar transtornos, mas também criar condições para uma vida mais equilibrada.
Nesse contexto, a organização financeira passa a ter um papel estratégico. Para o educador financeiro da Sicredi Serrana, Creiciano Paiva, falar de dinheiro é também falar de saúde.
“A vida financeira desorganizada gera um nível de estresse contínuo. Quando a pessoa não sabe quanto ganha, quanto gasta ou como sair das dívidas, isso afeta diretamente o emocional. Educação financeira não é só sobre números, é sobre bem-estar”, afirma.
Dívidas, culpa e silêncio
O psicólogo Alexandre Brito explica que o sofrimento financeiro costuma ser vivido de forma silenciosa. Segundo ele, muitas pessoas evitam falar sobre dinheiro por vergonha, medo de julgamento ou falta de educação financeira, o que agrava o quadro emocional.
“A pressão financeira ativa sentimentos como culpa, fracasso e impotência. Isso pode evoluir para quadros de ansiedade e depressão, especialmente quando a pessoa se compara com realidades diferentes da sua e acredita que precisa resolver tudo sozinha”, explica o psicólogo .
Alexandre destaca que o problema não está apenas na falta de dinheiro, mas na forma como a situação é enfrentada. “Quando não há planejamento, apoio ou responsabilidade, o problema cresce no psiquismo e se reflete no próprio bolso”, completa.
Organização financeira
Entre as estratégias para reduzir o impacto emocional das finanças, a organização do orçamento aparece como um primeiro passo. Mapear receitas e despesas ajuda a trazer clareza, reduzir a sensação de descontrole e permitir decisões mais conscientes.
Outro ponto essencial é lidar com as dívidas de forma estruturada, priorizando compromissos que envolvem serviços essenciais ou juros mais altos. “Encarar a realidade financeira é desconfortável, mas necessário para retomar o controle e aliviar a ansiedade”, reforça Creiciano Paiva.
Cuidado emocional
Além do planejamento financeiro, buscar apoio emocional faz diferença. Conversar com familiares, amigos ou profissionais ajuda a dividir o peso das preocupações e encontrar alternativas.
“A terapia é um espaço seguro para compreender a relação afetiva com o dinheiro. Muitas vezes, o comportamento financeiro está ligado a compensação (“eu mereço”), histórias de vida e tentativas frustrantes de lidar com dificuldades da vida”, explica Alexandre .
Educação financeira como prevenção
Pensar em prevenção passa, necessariamente, pela educação financeira desde a infância. A Sicredi Serrana apoia o programa nacional Cooperação na Ponta do Lápis, desenvolvido em parceria com a Turma da Mônica, que leva educação financeira para crianças e famílias de forma acessível e lúdica.
A iniciativa utiliza gibis, vídeos animados e conteúdos digitais para abordar temas como orçamento, poupança, consumo consciente e planejamento financeiro. Os materiais estimulam o diálogo dentro das famílias e ajudam a criar uma relação mais saudável com o dinheiro desde cedo.
“A educação financeira precoce forma adultos mais conscientes, preparados para tomar decisões e menos vulneráveis ao endividamento e ao sofrimento emocional”, destaca Creiciano Paiva. Segundo ele, a Sicredi Serrana utiliza esses materiais em ações locais, escolas e eventos comunitários, fortalecendo o desenvolvimento das comunidades onde atua.
Convite ao cuidado integral
A campanha Janeiro Branco propõe uma reflexão coletiva sobre saúde mental, e o dinheiro faz parte dessa conversa. Cuidar das finanças, buscar informação e pedir ajuda são atitudes que contribuem para uma vida mais equilibrada.
“Saúde mental também passa pelo bolso, mas não precisa ser um caminho solitário. Informação, diálogo e apoio fazem toda a diferença”, conclui Alexandre Brito.





